Viver na verdade do Espírito de Jesus

Data:

“…e Ele vos
dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da
Verdade”

 

Jesus está se despedindo de
seus discípulos; Ele os vê tristes e abatidos, pois, logo não o terão presente
entre eles. Quem poderá preencher este vazio da ausência? Até agora, foi Jesus
quem cuidou deles, defendendo-os dos escribas e fariseus, sustentando-os na fé
frágil e vacilante deles, ajudando-os a descobrir a verdade de Deus e iniciando-os
em seu projeto humanizador.

Nesta conversação
Jesus não só verbaliza o que pensa, senão que também expressa o que sente. O
grau de auto revelação e transparência aumenta. Esta longa conversa é uma
oportunidade única para os discípulos conhecerem mais profundamente o Mestre;
ao mesmo tempo lhes é dado a chance de se conectarem com o significado nem
sempre consciente daquilo que Jesus quer dizer.

 

A conversação deixa, então, transparecer as convicções, os
sonhos, os sentimentos… de Jesus.
“As palavras me escondem sem cuidado” (Manoel de Barros). Nesta maneira de conversar, Jesus
se manifesta tal e como é, verbalizando aspectos de si mesmo muito íntimos e
pessoais. A experiência do “nós” revela um significado especial de comunhão e
entrega.

Jesus lhes
fala apaixonadamente do seu Espírito; não os quer deixar órfãos. Ele
mesmo pedirá ao Pai que não os abandone, que lhe dê “outro defensor” para que
“esteja sempre com eles”. Jesus o chama “Espírito da
verdade”.
Que se esconde nestas palavras de Jesus?

Para o quarto evangelho, o Espírito
é “outro Paráclito” porque aquelas comunidades do final do século I tem claro
que o “primeiro Paráclito” é o próprio Jesus.

O termo grego “Parakletos”, que se
costuma traduzir como “Defensor”, significa literalmente “aquele que está ao
lado”, para defender, apoiar, consolar, sustentar… Por esse motivo, alguém já
insinuou que a tradução mais de acordo seria tanto de “advogado defensor” como
de “assistente social”.

 

Uma coisa é muito clara para o
evangelista João. O mundo não vai poder “ver” nem “conhecer” a verdade
que se esconde em Jesus. Para muitos, Jesus terá passado por este mundo como se
nada tivesse acontecido; não deixará rastro algum em suas vidas. Para conhecer
Jesus é preciso ter olhos novos. Só aqueles que o amam poderão experimentar que
Ele está vivo, faz viver e chama ao seguimento.
“Conhecimento interno para mais
amá-lo e segui-lo”
(S.
Inácio).

Este “Espírito da
verdade”
não deve ser confundido com doutrina, dogmas… Não se
encontra nos livros dos teólogos nem nos documentos do magistério da Igreja.
Segundo a promessa de Jesus,
“o Espírito permanece junto de nós e está
dentro de nós”.
Nós o
escutamos em nosso interior e resplandece na vida de quem segue os passos de Jesus
de maneira humilde, confiada e fiel.

É o
“Espírito da verdade” que desperta em nós os sentimentos mais elevados, os
desejos mais nobres, os recursos inspiradores… Ele tem a capacidade de fazer sintonizar
nosso coração com os sentimentos do coração do próprio Jesus.

Talvez
seja esta a conversão que mais precisamos hoje como seguidores(as): passar de
uma adesão verbal, rotineira e pouco real a Jesus para a experiência de viver
enraizados em seu “Espírito da verdade”. Afinal, somos seguidores de uma Pessoa
e não de uma religião ou doutrina.

 

Este “Espírito
da verdade”
não nos converte em “proprietários” da verdade; não vem
para que
imponhamos a outros nossa fé nem para que controlemos sua ortodoxia.
Vem para não nos deixar órfãos de Jesus, e nos convida a abrir-nos à sua
verdade, escutando, acolhendo e vivendo seu Evangelho.

Este “Espírito
da verdade”
também não nos faz “guardiães” da verdade, mas testemunhas.
Nossa missão não é disputar, combater nem derrotar adversários, mas viver a
verdade do Evangelho e
“amar a Jesus guardando seus mandamentos”.

O “Espírito da verdade”
é Aquele que nos desvela como verdadeiros; Ele nos sintoniza com a “verdade de
Jesus” e faz emergir nossa verdadeira identidade de pessoas originais, únicas,
sagradas…

Quem se deixa conduzir pelo
“Espírito da verdade” torna-se testemunho da verdade contra todo tipo de
calúnias, mentiras, intolerâncias, fanatismos. É extremamente incoerente quem
afirma se deixar conduzir pelo Espírito e atua como canal transmissor de
“fake-news”, julgamentos preconceituosos…

 

A “verdade”
se expressa assim como “testemunho” de vida interior. Temos ao nosso lado o
Grande Testemunho de Deus, que é Jesus. Podemos ser e somos testemunhas de Deus
uns para com os outros.

O Deus de
Jesus está presente no mais profundo de nosso ser, identificado com nossa
essência. Sendo Amor em nós não pode admitir intermediários. Isto não é útil
para nenhum poder ou instituição.

 

Mas esse é
o Deus de Jesus. Esse é o Deus que, sendo Espírito, tem como único objetivo
conduzir-nos à plenitude da verdade, a sermos verdade, verdadeiros, autênticos.
E aqui “Verdade”, ao contrário do que, muitas vezes pensamos, não é
conhecimento, mas Vida.

Enquanto
haja Espírito há alento e enquanto haja alento há vida. O Espírito é o alento,
a respiração do mundo. O Espírito enche a face da terra, penetra até o mais
íntimo dos nossos coração.

O Santo
Espírito da verdade nos faz respirar, viver, sonhar, amar, criar… O Espírito,
no aperto nos dá largueza, na enfermidade nos convida a crer na cura, no caos
nos torna criadores.

O Espírito nos foi enviado para que
seja o Alento do mundo; Ele é como rios de água viva para que haja vida e vida
em abundância; como labaredas de fogo, para que a energia se multiplique e tudo
funcione.

“Creio no Espírito Santo, Senhor e doador de vida!”. Esta confissão de fé não é uma
mera fórmula teológica. É o testemunho de uma experiência permanente,
histórica. Sem o “Espírito de Vida” a trama da história se revela inquietante e
deprimente. Sob o olhar do Espírito o diagnóstico é decididamente positivo.

 

Quando nos deixamos
acender com as chamas do Espírito, quando nos deixamos arejar pelo vento
impetuoso do Espírito, ou refrescar pelos rios de água viva, experimentamos, em
nós e nos demais, um florescimento inusitado de carismas, de dons, que tornam
possível o impossível; confiamos mais nos ritmos e tempos de Deus; celebramos a
existência de uma fonte de Água Viva que tudo fecunda, um Alento divino que nos
faz respirar, um Fogo de Deus que tudo energiza, um Espírito que nos guia para
o Paraíso, quando parece que tudo está perdido.

O Espírito Santo é a Respiração do
mundo. Tudo vive graças ao Espírito. E quando uma pessoa, cheia do Espírito,
morre, não o perde… mas o exala sobre os demais. Jesus ressuscitado exalou o
seu Espírito sobre os discípulos. Aqueles(as) que na terra deixaram as marcas
do bem, da verdade, da justiça, continuam exalando o Espírito sobre nós.

Queira o Abbá e Jesus conceder-nos,
neste dia. a graça de respirar como convém e que, depois de enchermos os
pulmões de Espírito, nos tornemos mais verdadeiros e esperançados.

 

Texto bíblicoJo
14,15-21

 

Na
oração:
A Igreja
correu o risco de entender a verdade como al
go imposto de fora, resolvido e ensinado desde
cima. Mas Jesus promete aos seus um
magistério interior: os
cristãos só conhecem a autoridade do Espírito-Paráclito, que interpreta e
atualiza a mensagem do Evangelho.

Corremos o risco do
engano, da manipulação de diferentes tipos. Pois bem, se confiarmos no Espírito
que vive dentro de nós, teremos a garantia da verdade. Esta é a verdade
interna, aquela que ilumina a vida, a partir do interior de Deus, que é nossa
luz.

– No silêncio do seu
coração, deixe-se ensinar e conduzir pelo Divino Mestre.


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