O ativismo que nos seca por dentro

Data:
20/07/2025

“Marta estava ocupada com muitos afazeres” (Lc 10,40)

O evangelho deste domingo nos situa num ambiente familiar onde Jesus é acolhido na casa de suas amigas, Marta e Maria, em Betânia. Ele está cansado do caminho e sempre encontra nesta casa da pequena aldeia, próxima de Jerusalém, um lugar para descansar do caminho, repor as forças para continuar e recuperar a paz que, às vezes, perdia devido às dificuldades da missão.

Jesus “entra” naquela casa como o último dos peregrinos; mas, para as duas irmãs, Ele se torna o primeiro, o único, o centro, em torno de quem se reordenam toda a atenção e as outras ocupações.

A primeira intenção de Marta é ótima: acolher o Amigo. Mas, logo sua intenção primeira cede lugar às intenções secundárias, que, aos poucos, a envolvem e a afastam do essencial: hospitalidade do Amigo.

É como se a víssemos correndo de um lado a outro, talvez dedicando algum olhar ao hóspede ao princípio, mas à medida que passa o tempo, esse olhar revela-se distraído até se transformar em repreensão à sua irmã. O ir e vir, o afanar-se ofegante terminam por afastá-la da pessoa do Senhor.

Qual foi, então, o erro de Marta? O fato de não entender que a chegada de Jesus significava, principalmente, a grande ocasião que não se podia perder e, por conseguinte, a necessidade de sacrificar o urgente em favor do que é mais importante. Ela revela um comportamento dominante e possessivo. Envolve Jesus em uma embaraçosa discussão familiar. Impõe-se autoritariamente: “Mande que ela venha me ajudar”. Sobretudo, Marta busca, por todos os meios, chamar a atenção. O nome mesmo de Marta quer dizer “dona”, “senhora”, e ninguém se atreve a negar que se comporta como tal.

Marta representa um modelo de hospitalidade que carece da capacidade para “sair de si”; obriga o Amigo hóspede a entrar nos próprios esquemas, nos próprios ritmos, nos próprios desejos. É ela que decide o que deve agradar o hóspede. E não compreende que, ao invés de estar centrada no Mestre, está dispersa e perdida em suas coisas, as quais terminam por converter-se em algo intocável.

Marta fez muitas coisas para agradar ao Senhor, mas lhe negou a única da qual ele tinha necessidade: estar sintonizada n’Ele. Mas, Jesus se comportou com extraordinária delicadeza: admoestou-a e repreendeu com suavidade: “Marta, Marta…!”

O Mestre arranca Marta do plano do mero “fazer”, no qual ela desejaria envolver também sua irmã, e a impulsiona para o plano do “ser”.

Por outro lado, Jesus vê em Maria a mulher discípula, sintonizada com Ele e não dispersa em mil ocupações. Ele rompe com a tradição machista e inaugura uma condição nova para a mulher: ser sua discípula. Ele quer a mulher dedicada à única obra essencial, aquela que se encontra para além das múltiplas ocupações.

Jesus confirma Maria em sua opção fundamental, na atitude que, de modo intuitivo, ela tinha adotado. Consagra-a naquilo que é sua atitude prioritária: a atenção contemplativa, a escuta do Mestre. Nada deverá afastá-la desta presença descentrada e gratuita.

Maria acolhe o Mestre “a partir de dentro”, converte-se em tabernáculo d’Ele; brinda-o hospitalidade naquele espaço interior, secreto, que foi predisposto por Ele e que está reservado a Ele, a seu amor. Põe à disposição aquilo que o Senhor lhe pede, já que este espaço secreto foi criado, foi preparado por Ele e o adornou e consagrou justamente para este fim.

A diaconia feminina se alimenta do encontro e da escuta da pessoa de Jesus; o único e indispensável ministério feminino fundamenta-se na acolhida contemplativa da palavra de Jesus, em sua interiorização, no serviço da gratuidade.

Portanto, a “escuta” e o “serviço”, personalizados nas duas irmãs, não são alternativos, mas expressões da única e privilegiada relação com o Mestre.

A integração e harmonia entre as duas atitudes (escuta e serviço), é o caminho proposto pela dinâmica da espiritualidade cristã; ser “contemplativo na ação” ou “ativo na contemplação”, eis o equilíbrio difícil.

O que Jesus pede a Marta é amá-lo em seu serviço, como Maria o ama em sua atitude de escuta. Tudo o que se faz sem amor é tempo perdido. Tudo o que se faz com amor é eternidade reencontrada.

De fato, diante das preocupações, da agitação cotidiana, dos apegos, das “afeições desordenadas” … a escuta e o encontro com o Outro e com os outros tornam-se praticamente impossíveis.

Tal situação nos faz prisioneiros da solidão, sentindo-nos abandonados, impotentes, sobrecarregados pelo ativismo vazio e sem sentido…

O ativismo produz, a princípio, a sensação de estarmos muito ocupados e o falso consolo de “sentir-nos úteis”. Mas, de fato, o ativismo nos converte em engrenagens de um sistema massacrante e acaba gerando frustração, impotência e vazio, falta de sentido (para quê? para quem?…).

Em sentido mais profundo, o relato deste domingo revela uma riqueza maior. A “única coisa necessária”, “a melhor parte”, que ninguém nos poderá tirar, é a compreensão daquilo que “somos”. O decisivo é “ser”, tanto na ação como na contemplação.

Diante da falta desta compreensão, podemos “multiplicar” nossas atividades e nossos serviços, mas sempre aparecerão a inquietação, a ansiedade, o nervosismo e, sobretudo, a queixa contra quem não age como nós.

Este é para nós o ativismo doentio que nos seca por dentro. Ativismo não é o mesmo que muita ação, pois a ação oblativa nos dirige para fora de nós mesmos e o ativismo nos faz ficar curvados e fechados em nós mesmos. “Contemplativos(as) no ativismo” é contraditório. Não há contemplação no ativismo, mas introspecção paralisante.

Para muitos cristãos, precisamente, a agitação, o ativismo frenético, os serviços múltiplos, as “demasiadas” exigências às quais se dedicam, constituem uma tática dispersante e defensiva que lhes servem para proteger-se das verdadeiras exigências, para não deixar que o hóspede os interpele, para fugir do compromisso cara a cara com Ele; em uma palavra, para esquivar-se do encontro.

A atitude contemplativa típica de Maria não se opõe ao serviço característico de Marta.

Na vida cristã não se trata de eleger entre Marta e Maria; elas representam duas dimensões de uma personalidade cristã que deveria tender a ser unitária, duas dimensões que deveriam estar sempre estreitamente unidas, harmonizadas, integradas. É preciso servir ao Senhor como fez Marta e é preciso escutá-lo como o fez Maria. Pode-se dedicar a diferentes coisas, mas sem perder de vista a única necessária: a centralidade na pessoa de Jesus Cristo.

Em qualquer caso, o relato deste domingo serve como advertência, pois a “dimensão Marta”, presente em nós, tende frequentemente a prevalecer, a dominar tudo, até o ponto de bloquear o espaço aberto à “dimensão Maria”. No episódio que nos ocupa, o que importa é não perder o momento, a ocasião. Em definitiva, não frustrar a relação pessoal com o Senhor. Trata-se de compreender a importância da hora e da ocasião oferecidas. É questão de sacrificar o urgente em benefício do importante.

Devemos estar de sobreaviso, de modo que a Marta cheia de tarefas, inquieta e agitada que carregamos dentro de nós não intervenha brutalmente profanando, molestando, reduzindo, interrompendo bruscamente a oração, cortando o contato vital com o Senhor.

Texto bíblico: Lc 10,38-42

Na oração: Também nós precisamos habitar e saber habitar a nossa própria casa interior; só assim é possível reconhecer o Hóspede que em segredo a habita e a dignifica.

– No centro de sua casa interior está o Mestre ou está “Marta dispersa”?

– Na sua vivência do seguimento de Jesus, como integrar a “dimensão Maria” e a “dimensão Marta”?

Compartilhar

LEIA MAIS

08 set 2026

Retiro dos Diáconos Permanentes da Diocese de Jundiaí

04 set 2026

Clero de São Carlos

31 ago 2026

Nas Pegadas de Inácio de Loyola – EE Para Leigos

28 ago 2026

Clero de Osasco

21 ago 2026

Clero de Piracicaba

27 set 2026

Reconfigurando a rota da vida

20 set 2026

Deus não trabalha com “escala 6×1”

13 set 2026

Deus perdoa em nós

06 set 2026

Igreja, comunhão de comunidades

30 ago 2026

Jesus revela o verdadeiro sentido da Cruz

23 ago 2026

Perguntas que despertam a vida

16 ago 2026

Assunção: Maria “completou” sua existência em Deus

14 ago 2026

Retiro Anual do Clero de São João da Boa Vista

14 ago 2026

Curso de Aprofundamento Teológico e Pastoral do Clero Arquidiocesano de São Paulo

09 ago 2026

Itinerantes do Espírito