Jesus terapeuta, reconstrói as relações fraternas

Data:
11/02/2024

“Eu quero, fica curado!” (Mc 1,41)

Continuamos no primeiro capítulo de Marcos que resume a habitual maneira de Jesus atuar. E o evangelho de hoje nos fala de um leproso cara a cara com Jesus de Nazaré! Um leproso em Israel não era, de modo algum, um enfermo qualquer: seu grau de impureza era tal que sua exclusão sócio-religiosa era a mais radical das exclusões ordenadas na Lei: “O homem atingido de lepra andará com as vestes rasgadas, os cabelos soltos e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’. Durante todo o tempo em que estiver contaminado de lepra, será impuro. Habitará a sós e terá sua morada fora do acampamento” (Lev 13,45-46).

Não é fácil imaginar a carga de sofrimento e marginalização imposta pela enfermidade da lepra na Palestina do séc. I. O doente era obrigado a carregar não só o peso da enfermidade, da vulnerabilidade e do medo que procedem dela, mas também o estigma de ser considerado “pecador” e com a marca da rejeição que se concretizava numa severa norma de marginalização social. Tudo isso fazia com que o leproso fosse visto como um “empesteado” em todas as dimensões (física, social e religiosa).

Mas, mesmo nos casos mais desesperados, ainda havia a esperança de recuperar a saúde e, com ela, a possibilidade de reintegrar-se mais plenamente na vida social.

Compreende-se, então, que quem padecia de lepra desejasse, acima de tudo, “ficar limpo”. E essa é a petição que faz com que o leproso do relato se aproximasse de Jesus.

“Chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: se queres tens o poder de curar-me”. Esta atitude indica ao mesmo tempo valentia, porque se atreve a transgredir a Lei, mas também temor de ser rejeitado, precisa-mente por isso.

A ação terapêutica de Jesus acontece em quatro passos. O número quatro representa o aspecto terreno, o ser humano é reestabelecido em sua humanidade, à imagem do Deus que o criou.

O primeiro passo da cura: Jesus tem compaixão para com o leproso e se abre para o doente.  O segundo passo: Ele estende sua mão, prolongando seu coração compassivo e estabelecendo assim um contato.

O terceiro passo: o Mestre toca o leproso, quebrando uma norma legal que o excluía por ficar contaminado. Jesus não tem medo do contato físico; aproxima-se do doente, ativa todos os seus sentidos para senti-lo, demonstrando assim sua dedicação incondicional.

O quarto passo: o Mestre diz ao doente “Eu quero, fica limpo”. Ele demonstra sua dedicação ao doente.

O gesto de Jesus de “tocar o leproso”, expressão de sua profunda compaixão, revela uma clara confrontação com o que era exigido pela Lei; fala, de um modo eloquente, da forte reação de Jesus diante da exclusão, à qual está submetido um ser humano.

Jesus despede o leproso já curado para que os sacerdotes do Templo de Jerusalém atestem sua cura e autorizem sua integração junto à sociedade: respeitoso do código social de pureza-impureza, o Galileu situa o homem curado diante da Lei como caminho para recuperar seu lugar na comunidade.

O leproso curado não permanece passivo, simplesmente acolhendo o dom que acabara de receber, senão que participa também, em certa medida, na cura da qual é o beneficiário.

Mas, o curioso é que acontece algo fascinante: o excluído perde todo interesse em sua inclusão social a partir da Lei; em vez de ir ao Templo de Jerusalém, torna-se um propagandista da pessoa de Jesus. Sem dúvida, o ex-leproso encontra no mesmo Jesus a possibilidade nova de inclusão em uma comunidade que não gira em torno à Lei, mas em torno à igualdade fraterna. É justamente o gesto da imposição de mãos de Jesus um desafio implícito ao mundo da Lei que abre ao leproso um horizonte radicalmente diferente: o Reino de Deus, no qual se sente incluído.

Permanece, então, a memória da mão estendida de Jesus de Nazaré sobre a pele do leproso como gesto crítico às leis de uma sociedade que rejeita todo aquele que não se acomoda aos seus pré-conceitos; ao mesmo tempo, tal gesto se revela como uma forte exigência à comunidade universal de discípulos que o Mestre fundara para ser o espaço de inclusão que, de modo alternativo, venha a ser o lar de todos os excluídos. O fato de que Jesus se aproximasse dos doentes e se deixasse tocar por eles, ou de que os curasse de forma pouco ortodoxa, era um atentado contra as normas de pureza que fora imposta à sociedade palestina daquele tempo. Jesus não teve receio em transgredir estas normas, pois só assim podia se aproximar daqueles que estavam em situação de exclusão.

O que chama a atenção é a “gestualidade” de Jesus: Ele se aproxima dos homens e mulheres de sua época, toca os enfermos, impõe as mãos, toma as pessoas pela mão, estende as mãos…

As verdadeiras curas e milagres de Jesus são, antes de tudo, gestos de “humanização evangélica”.  Curar é sua forma de amar e seu amor curador o impulsiona à proximidade, estima para com o enfermo, respeito à capacidade de cura da própria pessoa. Seu amor que cura é gratuito.

Ao curar fisicamente uma pessoa, Jesus busca fazer emergir um ser humano mais sadio e inteiro, a partir de suas raízes, a partir de seu coração, centro e fonte das decisões. Jesus se compromete com a saúde radical e integral do ser humano, e devolve às pessoas a saúde em seu corpo, em suas emoções, projetos, relações e abertura ao Transcendente.

Através das curas Ele mobiliza todas as dimensões da pessoa, reestrutura seu universo relacional e abre sua interioridade à alteridade; ao mesmo tempo Ele potencia a liberdade do ser humano, recuperando a autonomia e a capacidade de dar direção à própria vida.

A enfermidade e o sofrimento têm muito a ver com a fragmentação, a dispersão e a divisão. A pessoa curada por Jesus recupera a harmonia, a unificação interior, a reconciliação com a vida e a relação com os outros.

Ser curado implica assumir uma responsabilidade que leva a implicar-se na transformação pessoal e social. A saúde integral tem a “carga” da maturidade e da responsabilidade na própria vida e no próprio processo.

O evangelista Marcos destaca que, em Jesus, a “comoção das entranhas” é o núcleo de sua ação curativa.

O sofrimento das pessoas desperta n’Ele a compaixão e o amor.

De fato, o primeiro sentimento que aflora em Jesus quando se vê diante dos enfermos é o da compaixão. Movido por ela, viola a lei que proibia aproximar-se e, muito mais, tocar o leproso. E assim revela que é a compaixão que cura as pessoas e não a simples observância da lei.

A compaixão constitui, ao mesmo tempo, o sentimento e a atitude nuclear de Jesus e um dos eixos do evangelho. Na realidade, todas as grandes tradições espirituais reconhecem a compaixão como o “test” que verifica a autenticidade do caminho espiritual.

Não se trata de um mero sentimento superficial que brota de nossa sensibilidade diante do sofrimento do outro. É um sentimento infinitamente mais profundo, uma comoção interior que nos faz estremecer com a pessoa que sofre (“compaixão”, “cum-passio” significa literalmente “sofrer-com”; no grego “sym-pátheia, termo eloquente que evoca atitudes de simpatia e de empatia); sentimento que nos põe na pele do outro, nos faz sentir com ele, e nos mobiliza a uma ação eficaz de ajuda.

Texto bíblico: Mc 1,40-45

Na oração: Há tantas dimensões de nossa vida nas quais o corpo fala mais alto: maneira de nos aproximar dos outros, de acolher, de cuidar, a delicadeza com que nos relacionamos… Nosso corpo pode expressar compaixão ou rigidez, calor humano ou frieza, acolhida ou preconceito…

– Suas mãos são o prolongamento das mãos divinas? Abertas, generosas, solidárias, que se estendem e envolvem os outros num abraço, sabem “bordar uma carícia”? Sabemos que nesses e em muitos outros gestos Deus está verdadeiramente ao alcance das mãos.

“Devemos tocar a carne de Cristo” (Papa Francisco). Como você sente suas mãos? Elas são o prolongamento do seu coração compassivo para poder “tocar em Deus”?

Compartilhar

LEIA MAIS

31 ago 2025

A sedução dos primeiros lugares

28 ago 2025

Retiro do Clero de Osasco

25 ago 2025

ETE FMC – Projeto de Vida: Identificando Talentos

24 ago 2025

Porta Aberta: Travessia para o Inesperado

17 ago 2025

Maria, a mulher dos olhos contemplativos

14 ago 2025

Retiro da Diocese de Campo Limpo

11 ago 2025

Mosteiro de Itaici organiza tríduo em honra a Santo Inácio

10 ago 2025

Buscar o tesouro que somos

07 ago 2025

22º Curso de Aprofundamento Teológico e Pastoral do Clero Arquidiocesano

07 ago 2025

Rede Servir realiza III Simpósio de Espiritualidade Inaciana em Itaici

03 ago 2025

Vazio interior: uma morte lenta

01 ago 2025

Retiro da Diocese de São José dos Campos

26 jul 2025

50 Anos do Congresso Fabra no Mosteiro de Itaici

27 jul 2025

Ser aprendiz na escola de oração de Jesus

20 jul 2025

O ativismo que nos seca por dentro