A covardia do “meio-termo”

Data:

“Quem põe a
mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus”
(Lc 9,62)

 

Jesus é muito claro quando se refere à radicalidade no seu
seguimento.

“Ninguém pode
ser meu discípulo se antes não renunciar a tudo o que possui!”
(Lc.14,33).

Trata-se de uma atitude, uma postura, uma entrega.

E a palavra é “tudo”.
O discípulo pela metade não pode ser discípulo. Jesus, ao associar
seguidores à sua missão, pede sinceridade
na vontade e verdade no coração. Não
servem as entregas pela metade. Ele
não se contenta com “amor a prestações”, com retalhos de vida.

A entrega parcial não é entrega. O “apego” a algo ou alguém
esvazia a afeição à pessoa de Jesus, travando a entrega e tornando impossível
que a relação com Ele cresça, se desenvolva e encha nossa vida de sentido. A entrega total, pelo contrário, traz à
luz todos os nossos recursos, desperta nossas potencialidades e incendeia
nossa fé.

Esta é a atitude genuína e
verdadeira diante da vida. Esta determinação é a que abre caminho, avança e ativa
a criatividade.
Ficar com “alguma coisa” daquilo que Ele pede,
fazer as coisas pela “metade”, adiar, regatear,
dissimular… é impedir a livre ação da Graça do Pai em nosso interior.

A
decisão autêntica é clara,
completa e definitiva.
Com “meias-tintas” não se escreve bem.

 

O evangelista Lucas des-vela
esse jogo do “meio-termo” no relato deste domingo. Duas pessoas manifestam o
desejo de seguir Jesus e uma terceira é chamada pelo próprio Jesus. Mas, há
algo em comum entre elas: as três apresentam “condiçõespara
fazer o caminho do seguimento.

 Dizer “condição” equivale a dizer “não”,
mantendo as aparências; é continuar apegado às “mediações” (bens, família, pai)
sem investir afetivamente no Reino. É medo de avançar, de arriscar, de ousar…

A resposta do meio-termo pode, de fato, causar mais prejuízo do que a negativa
sincera, porque uma negativa clara pode um dia levar ao arrependimento e à
reconciliação; ao passo que o adiamento
cortês, apesar de ser negativa absoluta, cria a impressão de ser um
gesto aceitável e embota a consciência.

O auto-engano do “SIM”, mas “NÃO” desemboca na mediocridade, no fazer as coisas pela
metade… é a funesta arte do regateio. E a mediocridade não tem lugar no
caminho do seguimento de Jesus.

              
“Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és

                és morno,
nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca”
(Apc.3,l5)

 

O medo de perder “algo” ou “alguém” no
futuro atrapalha viver intensamente o presente. Quantos “pesos mortos” arrastamos
em nossa vida, com recordações, lembranças, apegos, afetos desordenados…!

O desejo de possuir confunde nossa vida. E já não se trata mais de uma lição
moral sobre o vício ou a virtude, mas do impacto psicológico que produz em
nosso comportamento o fato de nos sentirmos apegados a algo ou a alguém, com a
consequente perda de liberdade e o perigo da dependência
que esse apego causa. O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com
facilidade. Perdemos o “fluxo” da vida, o impulso do movimento,
a suavidade do “deslizar pela existência”.

            “Diga-me o tamanho dos seus apegos,
e eu lhe direi o tamanho do seu sofrimento”.

 

Para desmascarar nossas justificativas e
racionalizações referentes aos nossos apegos, Jesus não contou apenas
parábolas; muitas das suas expressões são também enigmáticas e impactantes. Mas
é justamente esse modo de falar de Jesus que possui efeito provocativo e
surpreendente.

Ao dizer – “deixem que os mortos enterrem os seus mortos”
-,
Ele
nos faz entrar em contato com tudo aquilo que está morto em nós mesmos: tudo
que não significa vida, com a rotina repetitiva do nosso dia a dia, com o vazio
interior, com as coisas estagnadas da nossa existência.

Com sua linguagem radical, Jesus
nos permite chamar as coisas pelo que são e declará-las mortas. Ele convida a
nos afastar das coisas que não mais nos dizem respeito e que exigem um alto
investimento afetivo. Muitas “aderências afetivas” – bens, posses, pessoas,
lugares, poder, vaidade, segurança material – não estão ligadas à nossa vida
verdadeira, impedindo-nos de nos concentrar na causa do Reino de Deus e no seu anúncio.

 

Sabemos que uma das
características mais originais do ser humano é a capacidade de assumir compromissos. Comprometer é
empenhar-se radicalmente, é arriscar-se num projeto ousado, é envolver-se numa
causa inovadora. No compromisso, joga-se a própria vida. Em Jesus Cristo, a
pessoa encontra a realização da empresa
mais nobre e a garantia de poder entregar-se a ela sem se enganar.

 

O ato de decidir é o mais nobre e profundo de todos os atos do ser
humano, a própria definição da
pessoa e a expressão última de sua
dignidade. E precisamente porque é nobre
e profundo, definindo a identidade
de cada pessoa, decidir torna-se difícil e penoso. Por isso sua reação
instintiva ao enfrentar uma decisão
é tratar de evitá-la, dissimulá-la, adiá-la.

Custa decidir porque lhe
custa definir.
Muitos pertencem à “confraria do
último dia”.

Chegamos à pós-modernidade com
enorme carga de medo; medo cruel que
alcança todo mundo, medo que afeta os corajosos e agride os ousados: medo de
comprometer-se, medo de definir-se, medo de equivocar-se, medo de enfrentar, medo de ter de agir, medo de fazer opções,
medo da própria missão…

O medo corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e
mata a criatividade.

O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos
em direção ao “mais”.

O medo cega os canais do
discernimento, imobiliza o mecanismo das decisões.

Quem teme não pode decidir bem. Sob
a influência do medo, o olhar, o
pulso, o equilíbrio deixam de ser o que deveriam ser e de agir como deveria
agir. O ambiente se turva e a eleição se frustra.

Para desenvolver ao máximo nossas
potencialidades, temos de enfrentar dilemas,
encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades.
Isto nos faz descer ao chão da vida, despertar nossas energias, encontrar a nós
mesmos.

 

Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele
incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a
cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir
é deixar-se con-figurar, movimento pelo qual a pessoa vai sendo modelada à imagem de Jesus.

O seguimento de Jesus Cristo pressupõe uma pessoa capaz de sair de si
mesma, de des-centrar, com coragem de arriscar. Sem se abrir ao “magis”,
que habita o coração humano, não haverá desejos de identificação com o
Peregrino da Galiléia.

Diante do Cristo que chama, a pessoa sente-se pro-vocada,
chamada a superar-se, desafiada a arriscar e a ser “mais”.

É preciso sonhar alto, ter ideais,
ser uma pessoa corajosa e marcada pela esperança para poder “escutar”
o apelo de Cristo; é preciso ser apaixonado, deixar-se empolgar, aceitar correr
riscos na vida para saber o que significa o “comigo” de Cristo; é
indispensável uma enorme generosidade para se dedicar incondicionalmente a uma
grande causa; é preciso forte dose de ousadia e coragem para transcender-se, ir
além de si mesmo…

 

Texto bíblicoLc
9,51-62

 

Na
oração:
Temos
muitas atitudes, posses, ide-

                    ias, cargos, posições,
bens…
que consideramos
como Vontade de Deus; na realidade é tudo “projeção” de nossos
desejos atrofiados; é tudo manifestação de nossos “afetos desordenados”.


No seguimento de Jesus, o que prevalece em sua vida? Adesão incondicional à
pessoa d’Ele ou seguimento sob condições? Que “apegos” travam sua vida, exigindo
um alto investimento afetivo?


Que paixão move sua vida? Seu coração está livre?…


 

Compartilhar

LEIA MAIS

01 mar 2026

Transfiguração: o que viram em Jesus é o que todos somos

28 fev 2026

DIOCESE DE ITAPEVA

27 fev 2026

CLERO DE SANTOS

22 fev 2026

Deserto, chave para abrir a porta da casa de nosso “eu verdadeiro”

CLERO DE SOROCABA

18 fev 2026

Quaresma: retornar à própria casa

15 fev 2026

Quem tem a lei na mão, carrega pedras no coração!

12 fev 2026

CLERO DE JUNDIAÍ

08 fev 2026

Sal e luz: sabor e cor à vida

04 fev 2026

EE 30 Dias Corridos – 02 a 31/01

31 jan 2026

EECC 08 Dias de 22 a 30/01/2026

01 fev 2026

Bem-Aventuranças: Coração do Evangelho

28 jan 2026

EE Para Jesuítas

25 jan 2026

Tudo começou na Galiléia…

23 jan 2026

EE 30 Dias em Etapas – 2ª Etapa