Seguir Jesus: fome e sede de estradas

Data:
14/07/2024

“Jesus chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes autoridade…” (Mc 6,7)

“Seguidores do novo caminho”: assim eram reconhecidos os primeiros cristãos (cf. At 16,17; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,14.22). Pelos diversos caminhos da história perdem seu valor as verdades inamovíveis, dogmáticas, petrificadas, porque o importante na vida é discernir, em cada encruzilhada do percurso, o que nos diz hoje o Deus da Vida, sua Presença e sua voz manifestada nos rostos e nas existências de homens e mulheres de nosso mundo, em especial os mais desprezados e esquecidos.

Jesus envia seus discípulos com o necessário para caminhar. No envio, algumas orientações que pressu-põem despojamento para o bom exercício da missão: segundo Marcos, levarão apenas um cajado, sandália e uma túnica, confiando na providência acerca do pão e do dinheiro.

Desprendimento é uma característica fundamental de quem está voltado para o Reino, anunciado por Jesus. Não precisam de mais nada para serem testemunhas do essencial. Jesus os quer ver livres e sem ataduras; sempre disponíveis, sem instalar-se na acomodação do bem-estar, confiando apenas na força do Evangelho.

Fala-se muito hoje, na comunidade eclesial, sobre a necessidade de uma nova evangelização. Em que consiste? Onde pode estar sua novidade? Que é preciso mudar? Qual foi realmente a intenção de Jesus ao enviar seus discípulos para prolongar sua missão evangelizadora?

O relato de Marcos, neste domingo, deixa claro que só Jesus é a fonte, o inspirador e o modelo da ação evangelizadora de seus seguidores. Estes atuarão com Sua “autoridade”. Não farão nada em nome próprio; serão os “enviados” do próprio Jesus. Não pregarão a si mesmos, nem uma doutrina, nem um moralismo doentio e muito menos uma nova religião, com seus ritualismos estéreis e ameaças. Só anunciarão o Evangelho de Jesus. Não terão outros interesses: só se dedicarão a abrir caminhos ao Reino de Deus.

A única maneira de impulsionar uma “nova evangelização” é purificar e intensificar a vinculação afetiva com Jesus. Afinal, somos seguidores de uma Pessoa, e isto implica revestir-nos do modo de ser e viver desta Pessoa. Não haverá nova evangelização se não há novos evangelizadores, e não haverá novos evangelizadores se não há uma identificação mais viva, lúcida e apaixonada com Jesus. Não haverá nova evangelização sem se deixar conduzir pelo mesmo Espírito que atuava em Jesus e o conduzia para a “margem”, para o mundo dos pobres e excluídos.

Ao enviá-los, Jesus não deixa seus discípulos abandonados às suas próprias forças; comunica-lhes sua “autoridade”, que não é um poder para controlar, governar ou dominar os outros, mas uma força para “expulsar espíritos imundos”, libertando as pessoas de tudo aquilo que as escraviza, oprime e desumaniza.

Para Jesus, o poder nunca pode ser mediação de salvação, muito menos o poder religioso; pois, onde há poder, há imposição, divisão, submissão, medo… No exercício do poder, o centro está na própria pessoa que manda e controla.

“Autoridade” é outra questão muito mais nobre. Provém do latim “augere” (fazer crescer) e indica a capacidade que uma pessoa tem para estimular os outros a crescerem, para torná-los mais adultos e mais capazes de uma vida digna. Na autoridade, o centro está no outro, pois ativa a autoria e autonomia deste outro. Ter autoridade é viver des-centrado, sem buscar seus próprios interesses.

Uma pessoa tem autoridade por sua bondade e inspirada presença em um grupo, na família, na comunidade, no povo, na igreja… Pode acontecer que uma pessoa tenha poder legítimo (conferido por eleição) e nenhuma autoridade; ou, de outro modo, pessoa que tem autoridade, mas sem poder.

Jesus não governou sobre ninguém e nem impôs nada à força. Nunca utilizou o poder para controlar ou dominar seus discípulos; jamais excluiu a alguém. Foi livre e libertador: acolheu os mendigos doentes e marginalizados, negou-se a condenar a mulher adúltera, pediu a Pedro perdoar até setenta vezes sete… Despertou a vida nas pessoas excluídas, sensatez e justiça na sociedade. Não ostentou nenhum poder oficial, mas, segundo as pessoas, atuava e falava como quem tem autoridade.

Os discípulos sabiam muito bem qual era o encargo que Jesus lhes confiava. Nunca o viram governando a ninguém. Sempre o viram curando feridas, aliviando o sofrimento, regerando vidas, libertando as pessoas dos medos, contagiando confiança no Deus Providente. “Curar” e “libertar” foram a essência do ministério terapêutico de Jesus. Ele sempre se revelou como “o Libertador” do ser humano.

Por isso, uma nova evangelização que não seja libertadora, é vazia de valores evangélicos; acaba tendo um efeito contrário: domina e escraviza as pessoas, alimenta medos paralisantes, impede as pessoas de viverem com mais lucidez e liberdade. Foi para vivermos livres que Jesus libertou a todos.

Sem recuperar este estilo evangélico, não há nova evangelização. O importante não é criar novas atividades e estratégias, mas desprender-nos de costumes, estruturas e maneiras de proceder que estão nos impedindo de ser livres para contagiar o essencial do Evangelho, com verdade e simplicidade.

A Igreja, infelizmente, está perdendo esse estilo itinerante que Jesus pediu. O caminhar da Igreja é lento e pesado; não acerta em acompanhar os passos da humanidade; não tem agilidade para passar de uma cultura a outra; agarra-se ao poder que tudo controla; enreda-se em interesses que não coincidem com o Reino de Deus; manipula-se as consciências das pessoas impondo-lhes pesados fardos de culpas, julgamentos, ritualismos de expiação, distantes da presença libertadora de Jesus.

Nesse contexto podemos recordar uma sentença do evangelho apócrifo de Tomé (que retoma a mensagem do envio de Marcos e Mateus): “Sede itinerantes! Sede transeuntes!” De passagem vivemos, mas no caminho podemos e devemos nos encontrar e nos ajudar, animando-nos. Foi assim que, com um grupo de homens e mulheres, como transeunte do Reino, voluntário do amor, rico de vida e mendicante de esperança, começou Jesus sua missão evangelizadora.

Assim começou Jesus; assim também começaram os grandes cristãos como Francisco de Assis, Inácio de Loyola, João da Cruz, Madre Teresa…, e tantos outros que souberam retornar e retornam hoje aos caminhos da vida, para acompanhar os que vagueiam, acolher os perdidos, animar e deixar-se animar por todos.

Não foi Jesus um itinerante para estabelecer relações de domínio, mas de solidariedade, sabendo que aqueles que menos tem (itinerantes) são os que mais podem oferecer (anunciam o Reino, curam).

O grupo de Jesus não se constitui em chaves de dependência ou hierarquia, mas de experiência comparti-lhada e comunicação pessoal. Estas novas relações são as que estabelecem a novidade da instituição cristã.

Por isso, é urgente uma profunda conversão sinodal (“caminhar juntos”); e isto significa retornar à essência do Evangelho, à identificação com Aquele que é o centro da vida cristã.

A missão evangelizadora não é tarefa de uns poucos, mas a consequência inevitável da adesão a Jesus. Não se trata de salvaguardar, a todo custo, doutrinas ultrapassadas ou normas morais que não humanizam; menos ainda em conservar ritos fossilizados que já não dizem nada a ninguém.

A mensagem de Jesus não pode ser contida em fórmulas, nem numa programação. É uma maneira de ser e viver. Ser cristão é uma maneira de ser mais humano.

“As religiões se fazem indigestas – não só indigestas -, mas sumamente perigosas, quando pretendem apoderar-se do Absoluto” (J. Melloni, sj)

Texto bíblico: Mc 6,7-13

Na oração: Nas estradas da vida acontece algo de verdadeiro e belo quando nos dispomos a buscar dentro de nós mesmos a razão da nossa existência: falta-nos ainda muito por saber, por ver, por sentir, por desfrutar…

A nossa vida é um êxodo, um sair constante de uma realidade para entrar em uma outra realidade nova.

O peregrinar é o elemento determinante e com maior valor simbólico para toda a vida.

– Diante de Jesus, que “passa e chama” a todos, responda: como você vive, hoje, sua missão no trabalho, no seu ambiente, na sua comunidade? Que sentido você quer dar à sua própria vida?… em quê gastar suas forças, capacidades? Como viver, no seu cotidiano, sua vocação de discípulo(a)-missionário(a) itinerante?

Compartilhar

LEIA MAIS

31 ago 2025

A sedução dos primeiros lugares

28 ago 2025

Retiro do Clero de Osasco

25 ago 2025

ETE FMC – Projeto de Vida: Identificando Talentos

24 ago 2025

Porta Aberta: Travessia para o Inesperado

17 ago 2025

Maria, a mulher dos olhos contemplativos

14 ago 2025

Retiro da Diocese de Campo Limpo

11 ago 2025

Mosteiro de Itaici organiza tríduo em honra a Santo Inácio

10 ago 2025

Buscar o tesouro que somos

07 ago 2025

22º Curso de Aprofundamento Teológico e Pastoral do Clero Arquidiocesano

07 ago 2025

Rede Servir realiza III Simpósio de Espiritualidade Inaciana em Itaici

03 ago 2025

Vazio interior: uma morte lenta

01 ago 2025

Retiro da Diocese de São José dos Campos

26 jul 2025

50 Anos do Congresso Fabra no Mosteiro de Itaici

27 jul 2025

Ser aprendiz na escola de oração de Jesus

20 jul 2025

O ativismo que nos seca por dentro