“…porque sou manso e humilde de coração, e
encontrareis descanso para vós” (Mt 11,29)
O mês de junho, dentro da Igreja católica, é também
conhecido como o “mês do Sagrado Coração”, cuja solenidade é festejada na
sexta-feira posterior ao segundo domingo depois de Pentecostes. Desde as
origens desta devoção o que se busca comemorar e celebrar é o Amor de Deus,
manifestado de um modo original na história concreta de Jesus de Nazaré.
Jesus viveu sempre a partir de seu coração e
contagiou a todos com a força poderosa de seu amor e de sua entrega. Ele nasceu
com um coração de carne, ou seja, humano, absolutamente divino. Nele se
realizou definitivamente a promessa de ser o coração de todos, o centro
nevrálgico da humanidade.
Jesus foi o homem para os outros, que teve coração,
um coração não de pedra, mas de carne. Sua vida, um sinal do bem amar, do saber
amar. Mas, sobretudo, Jesus, em seu Coração, revelou a profundidade mesma do
ser humano e de Deus. Nele estava a fonte do Espírito que brotava como água
fecunda até a vida eterna. Graças à Encarnação, o Filho de Deus trabalhou com
mãos humanas, pensou com inteligência humana, sentiu com vontade humana, amou
com coração humano.
O Coração de Jesus nos fala de iniciativa, de
liberdade, de entrega absoluta e amor profundo; recorda-nos como Deus, por sua
pura iniciativa, pelo compromisso com os homens e mulheres de ontem, hoje e
amanhã, sai de si para encarnar-se em meio ao nosso mundo, acampando em meio à
nossa realidade histórica e cotidiana. Seu Coração nos revela que sua Vida
implica um movimento de saída, que provoca encontros pessoais, que transforma a
vida daqueles(as) que o seguem, abrindo-lhes novos horizontes, ampliando a
visão e descentrando-os de sua própria lógica.
Seu coração aberto é o lugar por onde voltamos a
Deus com todos, onde aprendemos quem é Ele e quem somos nós. É um caminho que
nos faz passar do temor à confiança, da ansiedade ao abandono, do reter a
própria existência a entregá-la, do medo à liberdade, da morte a uma vida sem
fim.
O evangelho deste dia mostra um dos mais vivos
exemplos de coração agradecido que podemos encontrar. Jesus, que acaba de
passar por uma profunda experiência de rejeição por parte das cidades da
Galiléia, explode no canto que começa: “Eu
te louvo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos”. O
coração de Jesus é sustentado, alimentado, irrigado pelo amor cuidadoso e
providente do Pai. É no coração que também nós, seus(suas) seguidores(as),
poderemos estar em segurança, profundamente repousados. É no coração, “última
solidão do ser”, que decidimos por Deus e a Ele aderimos. Aqui Deus marca
“encontro” com cada um de nós. “Deus é
mais íntimo a cada um de nós do que nós mesmos” (S. Agostinho).
O Coração de Jesus continua sendo expressão central
da fé cristã, expressão do amor de Deus para com o ser humano. O Papa Francisco
usa, com frequência, uma expressão carregada de intensidade: “revolução da ternura”. Sem dúvida, a “mansidão” e a “ternura” definem
radicalmente o sentir e o atuar de Jesus.
A revolução da ternura nos convida a acompanhar,
curar e acolher, a partir de nossa realidade, aqueles que nos rodeiam, a viver investindo
nossos melhores recursos em favor dos outros.
Hoje, essa proposta simples, mas de profunda marca
evangélica, responde à desumanização que estamos vivendo. Essa revolução da
ternura nos convida a sair de nós mesmos, a colocar nossa vida a serviço do
irmão, a entrar no fluxo do Amor de Deus, fazendo chegar a tantos que dele
necessitam, através de nossa mão, de nossa presença cheia de ternura; assim
vivendo, nos convertemos em transparência profunda do próprio Coração de Jesus.
Segundo a tradição bíblica, o que mais nos desumaniza é viver com um “coração
fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de crer.
Quem vive “fechado em si mesmo”, não pode acolher o Espírito de Deus,
não pode deixar-se guiar pelo Espírito de Jesus. Quando nosso coração está “fechado”, nossos olhos
não veem, nossos ouvidos não ouvem, nossos braços e pés se atrofiam e não se
movimentam em direção ao outro; vivemos voltados sobre nós mesmos, insensíveis
à admiração e à ação de graças. Quando nosso coração está “fechado”, em nossa
vida não há mais compaixão e passamos a viver indiferentes à violência e
injustiça que destroem a felicidade de tantas pessoas. Vivemos separados da
vida, desconectados. Uma fronteira invisível nos separa do Espírito de Deus que
tudo dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia.
Quando vivemos a partir do coração, escutamos com
mais paciência, olhamos com cumplicidade, tocamos com ternura, sofremos com
fortaleza, assumimos o risco com naturalidade, misturamos nossa vida com a dos
outros e avançamos em comunidade realizando projetos solidários.
Assim, confessamos que o Coração de Jesus foi tão
humano que o veneramos como “Sagrado”. Contemplando-o na totalidade de seus
sentimentos, poderemos modelar o nosso coração, cristificando-o (“aprendei de mim…”). Do mesmo modo,
conhecendo as dinâmicas, as paixões, as dimensões sombrias e as luminosas de
nosso coração, poderemos nos aproximar, um pouco mais, do mistério da pessoa de
Jesus, onde Ele deixou transparecer a alegria e a tristeza de ser homem,
através desse coração tão humano e tão sagrado.
Jesus convida a entrar no seu amplo e solidário
coração, para que possam “descansar”, todos aqueles(as) a quem a vida insiste
em negar-lhes um sentido, aqueles(as) que são vítimas de uma sociedade tão
desumana, aqueles(as) que já não sentem mais forças e se sentem sozinhos(as) e
rejeitados(as), aqueles(as) que não tem outro motivo para se alegrar a não ser
em Deus.
Uma devoção ao Coração de Jesus que não nos conduz a
estabelecer novas relações humanas, prolongando o modo humano de ser e de viver
de Jesus, torna-se uma devoção vazia, estéril, marcada por uma piedade
alienante e alienada.
Texto bíblico: Mt 11,25-30
Na oração: Todos estamos no coração de Cristo. Todos estamos no Amor de Deus. Todos
fomos introduzidos na Sagrada Humanidade d’Aquele que, sendo Deus, se fez
semelhante a nós para que possamos todos nos sentir n’Ele.
O coração se revela como imagem de amor, de
humanidade, de entranhas compassivas. Identificamos as pessoas por seu bom
coração, por suas entranhas de misericórdia.
– Você deixa transparecer seu coração na relação com
as pessoas? As atividades que você realiza tem coração?
Texto: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Foto: https://bit.ly/356kFKL