Quando a Cruz deixa de ser “peso morto”

Data:

“Se
alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24)
 

A paixão-morte de Jesus foi, para os primeiros
cristãos, o ponto mais impactante de suas vidas. Seguramente, o primeiro núcleo
dos evangelhos foi constituído pelo relato da paixão-morte de Jesus. Não nos
deve estranhar que, ao relatar o restante de sua vida, se faça a partir dessa
perspectiva.

Por isso, até quatro vezes Jesus anuncia sua
paixão e morte no evangelho de Mateus. Não era preciso ser profeta para dar-se
conta de que a vida d’Ele corria sério perigo. O que Ele dizia e o que fazia ia
contra à religião oficial, e os encarregados de sua custódia tinham o poder
suficiente para eliminar uma pessoa tão perigosa para seus interesses. Até seus
familiares mais próximos quiseram impedi-lo, forçando-o a levá-lo para sua
casa, porque havia escolhido um caminho de loucos.

Pedro se
rebela só de imaginar Jesus Crucificado. Não quer vê-Lo fracassado; só quer
seguir a Jesus vitorioso e triunfante. Também nossa sociedade, marcada pelo
imediatismo, competitividade, busca de resultados e rejeição a todo tipo de
fracasso, a presença da
Cruz é um escândalo inaceitável. De fato,
nela mesma, a
Cruz não tem sentido. Se a Cruz é de tal modo exaltada,
fazendo com que a vida e a ação de Jesus fiquem reduzidas a ela, então acontece
que ela se torna angustiante e aflitiva, incapaz de motivar ao
seguimento
ou de acender a
esperança.

Jesus não morre na cruz para buscar
o sofrimento, mas por ser consequente até o fim com sua mensagem: o amor
incondicional do Deus da vida. Ele não fugiu, não contemporizou, não deixou de
anunciar e testemunhar, embora isso o levasse a ser crucificado.

Nesse sentido, a Cruz de Jesus não permanece
confinada em si mesma; ela se insere no interior da paixão dolorosa do mundo e
seu sentido mais profundo reside em sua
solidariedade para com
todos os crucificados da história.

Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz
da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida
evangélica, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas,
às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres
das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali
nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucificados da
história.

Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no
Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da
Cruz
aqueles que estão dependurados nela.
 

A cruz
e a morte só são dignas quando são consequência da luta contra a “cruz”
e a “morte” impostas às pessoas e quando expressam solidariedade com os
crucificados. Aqui há espaço de transformação.

A cruz se ilumina quando requer o abraço de uma
situação inevitável. Se a enfermidade não tem cura, se a morte de um ser
querido nos arrebata, se uma catástrofe natural nos deixa impotentes, se a
denúncia profética de uma injustiça acarreta perseguições etc., crescemos
quando abraçamos essa cruz e a superamos espiritualmente.

A Cruz liberta quando não termina nela mesma, mas
na ressurreição. Enquanto a carregamos é leve se ela aponta para um horizonte
de esperança.
“Vinde
a mim, vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e
eu vos darei
descanso… Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve”
(Mt 11-28-30).

Mas, para carregar a Cruz como Jesus, é preciso
passar por um processo de esvaziamento de nosso “falso eu” que, continuamente,
busca seus interesses, alimenta vaidades, quer ser o centro das atenções, sem
nenhuma sensibilidade solidária com os sofredores e vítimas de uma sociedade
que violenta e exclui.

O chamado de Jesus a “renunciar a si mesmo”
é um convite ao descentramento, a não viver girando obsessivamente sobre o
próprio eu.  Os místicos falam com
frequência da “morte do próprio eu”, e da felicidade que brota do interior
quando a pessoa se deixa possuir pelo amor de Deus.

Há uma forma de viver agarrada ao
próprio eu, que é fonte permanente de sofrimento. Muitas vezes, o que mais
sofrimento gera na pessoa é precisamente esse modo de viver apegado a ela mesma,
buscando cegamente e acima de tudo o próprio êxito, a boa imagem, a aprovação e
a estima dos demais. Esse cultivo equivocado do ego inflado se converte em
fonte de preocupação e sofrimento.

Inconscientemente, a pessoa pode
alimentar falsamente seu “ego” e inclusive agigantando-o de forma
desproporcional, organizando todo seu entorno a partir dele: minha pátria, meu
partido, minha igreja, minha ideologia; o ego vai então ficando cada vez mais
seduzido e mais exposto a toda sorte de problemas.

A atitude mais saudável está em
tomar consciência de que a origem de tanto sofrimento inútil está no 
indivíduo mesmo, nesse coração
cheio de egoísmo, de apegos, de invejas, de falsas ilusões, de sede de poder,
de ressentimento, de vazio interior… Da mesma forma que a dor física é um
sinal de alerta que avisa que algo funciona mal no organismo, existe todo um
conjunto de sofrimentos que revelam modos equivocados de viver: apegos,
servidões, contradições e incoerências que impedem um desenvolvimento sadio da
pessoa.
 

Este sofrimento não é uma cruz que devemos
carregar, mas uma carga que devemos “soltar”, se quisermos viver com o espírito
de entrega de Jesus.

No que se refere à experiência específica de
seguimento, deveríamos retomar o sentido da mensagem de Jesus referente ao
“negar-se
a si mesmo”
para poder viver. “A negação de si” enquanto negação
daquilo que nega a vida. “Negar-se a si mesmo”
é deixar de identificar-nos
com a tirania das mensagens de nossos pequenos
“eus”, que se refletem em
nossa própria linguagem.

“Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio:
significa negar o que na realidade “não somos”, despertar da ilusão e do
engano, deixar de girar em torno de um suposto
“eu” que não existe, para
viver a unidade de todos e de tudo em Deus e agir assim de um modo coerente na
vida.

Não somos um pequeno “ego”
que cremos ser. Precisamos despertar dessa ilusão e entrar em contato com nosso
verdadeiro Eu, nosso Ser e, a partir dele, olhar a vida, olhar nossa
atividade e olhar os outros, a fim de viver em conformidade com quem somos em
profundidade. É esse o modo de “ganhar a vida”.

Precisamos perceber que aquilo que para
nosso ego é “perda” e perigo, para nosso Eu verdadeiro é ganho profundo e
libertação. Ganhamos mais vida quando ela se esvazia de “ego” e se deixa
conduzir pelo amor oblativo que procede d’Aquele que é pura fonte de Amor.
 

Texto bíblico: Mt
16,21-27
 

Na
oração:
Todos nós somos habitados por um
conjunto de “eus”, alguns 
conscientes, outros inconscientes. São os “pequenos
amores”
ocultos (um eu orgulhoso, irado, triste, prepotente, avarento,
luxurioso…) que habitam reprimidos nosso interior. São elementos de nossa
própria
sombra, aos quais deveremos prestar atenção se quisermos avançar
rumo a uma plenitude humana e espiritual. Uma experiência espiritual profunda
consiste em estar cada vez mais lúcidos com relação a eles e identificando-nos
prazerosamente com nosso
Eu verdadeiro.


Quais são seus
“amores” (afetos desordenados que exigem alto investimento) que
fragilizam e atrofiam o seguimento de Jesus?


Diante da presença inspiradora da Graça, dê “nomes” aos seus “falsos eus” para
não se deixar determinar por eles. Ao mesmo tempo “dê nomes” às expressões do
seu “eu” original, que plenificam e dão sentido à sua vida.

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