Ascensão: expandir a visão

Data:
01/06/2025

“Jesus os levou para fora da cidade, até Betânia. E erguendo as mãos os abençoou” (Lc 24,50)

Primeiro dado que nos faz pensar: nem Mateus, nem Marcos, nem João, nem Paulo, mas somente Lucas, no final de seu Evangelho e, mais detalhadamente, no começo dos “Atos dos Apóstolos”, narra a Ascensão como um fenômeno constatável pelos sentidos.

Até o século V não se celebrava a festa da Ascensão. Considerava-se que a ressurreição já trazia em si a glorificação. Até então, o importante de toda a mensagem pascal era a certeza de que o mesmo Jesus que vivera com os discípulos, foi exaltado, chegou à meta, alcançou a plenitude que consiste em identificar-se totalmente com Deus.

No entanto, o mistério da Ascensão nos oferece a oportunidade para aprofundar mais uma dimensão do mistério pascal. Trata-se de descobrir que a posse da Vida por parte de Jesus é total. Ele participa da mesma Vida de Deus e, portanto, ascendeu ao mais alto dos “céus”, ou seja, sua presença torna-se universal.

A Ascensão é o salto para a novidade, para a beleza, para a transcendência; ela nos faz descobrir a verdadeira extensão da Vida; sua luz ilumina toda a Criação: a vida de Cristo na vida da Terra nos traz alegria e esperança. O universo inteiro é o “habitat” do Cristo Cósmico.

A presença pascal de Jesus já é Ascensão; não é um afastar-se dos seus, mas permanecer com eles de maneira diferente, em amor e em presença transformadora.

Também nossa meta de vida, como a de Jesus, é ascender em direção ao Pai, aos outros, à Criação inteira. “Subimos” quando “descemos” à nossa realidade, visibilizando o Cristo glorificado através de nossa presença inspiradora, esperançada e comprometida.

Celebrar a Ascensão de Jesus é ampliar nossa visão, romper com tudo aquilo que atrofia nosso coração, abrir-nos ao novo e saborear a vida que se revela sempre como contínua surpresa.

Muitas vezes, ocupados só com o resultado imediato de um maior bem-estar e atraídos por pequenas aspirações e esperanças tímidas, corremos o risco de empobrecer o horizonte de nossa existência, esvaziando a aspiração de eternidade e perdendo o desejo de uma vida mais expansiva.

O ser humano resiste a viver fechado para sempre nesta condição caduca e mortal.

Na verdade, muitos cristãos vivem hoje olhando exclusivamente para o chão, cabisbaixos. Parece que não se atrevem a levantar o olhar mais além do imediato de cada dia.

Nesta festa da Ascensão do Senhor podemos recordar as palavras do científico e místico Teilhard de Chardin: “Cristãos, a só vinte séculos da Ascensão, que haveis feito da esperança cristã?”

Em meio às interrogações e incertezas, os(as) seguidores(as) de Jesus continuam caminhando pela vida, fundamentados numa confiança e numa convicção. Quando parece que a vida se fecha ou se extingue, Deus permanece. O mistério último da realidade é um mistério de bondade e de amor. Deus é uma Porta aberta à vida que ninguém pode fechar.

É belo ver como Deus se manifesta neste desejo que habita todos nós, e coloca no interior de cada um algo tão transcendental e misterioso, ao alcance de nossa vivência e de nossa compreensão. “A eternidade (céu) é importante, mas a eternidade é construída no tempo e o tempo é importante” (Pe. Aldunate).

É isso que a liturgia faz: ela nos mobiliza a ir em busca dessa “escada” que nos permita alcançar tão profundo desejo. Foi assim que Jesus e seus contemporâneos entendiam a relação entre o céu e a terra.

A festa da Ascensão do Senhor é frequentemente mal-entendida como “a festa da desconexão” entre o céu e a terra. O Ressuscitado e Ascendido ao céu, não nos deixa órfãos; Ele não se ausenta, mas é Aquele que “sobe” e “desce” para iluminar toda a Criação, Aquele que conecta céus e terra.

O desejo que o Cristo expressa é de vivermos sobre a terra o céu que está em nosso interior. E diminuir a distância, a defasagem que existe entre nossos sentimentos mais elevados e nossas ações mais cotidianas.

Ele nos recorda que em nossas ações sobre a terra já se encontra o nosso céu. E o céu não é um estado que conheceremos somente após a morte, mas é também nossa grandeza interior.

O “subir”  até Deus passa pelo “descer”  até às profundezas da nossa própria realidade pessoal. Se com Cristo quisermos subir ao Pai, temos primeiro que descer com Ele à terra, afundar os pés na nossa própria condição humana.

O relato de Lucas, neste domingo, afirma que o Ressuscitado, tirou os seus discípulos do lugar onde estavam trancados e os levou para fora da cidade, até Betânia. Ascensão é festa que amplia nossa visão da humanidade e da realidade, alarga nosso coração para vivermos relações mais sadias com os outros, desperta nossa sensibilidade para acolher a vida, confirma nossa missão de prolongar a mesma missão de Jesus: sermos presenças solidárias e compassivas, acolhendo tudo o que é humano e comprometendo-nos com a transformação deste mundo, ainda carregado de morte.

É como se o Glorificado nos dissesse: “olhem a terra e seus homens e mulheres, deixem-se afetar pelas suas lágrimas e angústias, assumindo tudo como algo próprio dos meus discípulos; ocupem-se em transformar tudo, ajudando as pessoas a fazerem a travessia em direção ao amor, à verdade e à justiça”.

Esta é a aparição, única e universal, de Jesus segundo Lucas, uma “ascensão” que não é subida a outro céu, mas presença nesta terra, até o final dos tempos. Esta “aparição” (presença) tem valor definitivo: não termina, perdura para sempre. Ela continua, não teve nem terá fim, até o dia em que a história chegue à sua plenitude. Isso significa que o tempo da humanidade (discípulos/as de Cristo) está marcado pela permanência e frutos dessa grande visão que fundamenta toda sua existência.

Há uma eterna tentação que se abate sobre nós, qual seja: fixarmos em olhar no céu para não prestarmos atenção ao mundo que nos cerca. Ao nos deixar conduzir pelo Espírito, rompemos com nossos lugares estreitos, vivemos a expansão de nós mesmos, tornamo-nos universais….

Essa ascensão não pode ser feita às custas dos outros, mas servindo a todos. Como Jesus, a única maneira de alcançar a plenitude é descendo para o mais profundo. Aquele que mais “desceu” é Aquele que mais alto “subiu”.

Podemos, também, conectar a Ascensão com o Nascimento de Jesus. Nada nos impede pensar a Ascensão como Natal ao contrário. O Natal é Jesus que vem de Deus para junto da humanidade. A Ascensão é Jesus que faz o retorno a Deus, junto com a humanidade e a Criação inteira. Não se trata simplesmente de dois momentos, mas de dois modos de presença: no Natal, faz-se presente e torna Deus visível na condição humana. Na Ascensão, continua fazendo-se presente, mas de maneira invisível também no humano.

Quando no Natal, Jesus se humaniza, assume nossa condição humana e a assume para sempre. A partir de então, o humano tem cheiro de divino e o divino tem cheiro de humano.

Quando na Ascensão se esconde a condição humana de Jesus, este continua fazendo-se Natal na vida da comunidade cristã e de seus seguidores.

No Natal, Deus nos acostumou à sua visibilidade no humano. Na Ascensão, Deus quer nos acostumar à sua invisibilidade no humano. Invisibilidade que não é ausência, mas presença de outra maneira.

Assim como Jesus não abandonou seu Pai para “fazer-se carne”, tampouco nos abandona para voltar a seu

Pai. Mais ainda, o único objetivo da mensagem evangélica é que todos cheguemos à vivência profunda desse mistério, e vivê-la como Ele a viveu.

Cristo ascende e nos faz ascender à vida plena, neste mes-mo mundo, no caminho da Igreja.

Texto bíblicoLc 24,46-53

Na oração: Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade, que é seu mistério íntimo e pessoal que quer se expandir, romper com os limites e as estreitezas da vida.

Viver a Ascensão, desde já, é deixar o Espírito desatar as potencialidades de vida: novas relações, novo compromisso, novas inspirações, nova visão…

– Fazer memória das dimensões da vida que estão atrofiadas e que precisam entrar no fluxo da Ascensão.

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