Quarta-feira da Semana Santa

Data:
16/04/2025

“Ao cair da tarde, Jesus se pôs à mesa com os Doze”

Mais uma vez a liturgia nos convida a “fazer memória” da Última Ceia, uma refeição tão especial e carregada de sentido. Jesus havia transitado por muitas refeições, participado de muitas mesas (especialmente com os pobres e pecadores) e agora Ele nos deixa uma “mesa” como marca dos seus seguidores. Mesa da partilha e da inclusão, mesa da festa e da comunhão.

É em torno a esta mesa que os seguidores de Jesus se constituem como verdadeira comunidade. Ao recordar a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, os cristãos se comprometem a prolongar os Seus gestos, atitudes, valores, compromissos… “Fazer memória” de Jesus junto à mesa é comprometer-se com a vida; é colocar a própria vida a serviço da vida.

Jesus quis cear com os seus amigos mais próximos e, por isso, precisa encontrar uma sala na qual houvesse espaço para estarem juntos. O ritual pascal dá lugar aos gestos simples que acontecem entre amigos: partilhar o pão, beber da mesma taça, desfrutar da mútua intimidade, entrar no clima das confidências…

Jesus sempre buscou companhia; havia nele uma necessidade irresistível de contar com os seus como amigos e confidentes. Sua relação com eles vinha de longe: levavam longo tempo caminhando, descansando e tomando refeições juntos, partilhando alegrias e rejeições, falando das coisas do Reino. E continuará considerando-os como amigos, mesmo quando um deles irá traí-lo e os outros fugirão.

Jesus fez questão de se confraternizar com o círculo dos amigos, do qual Judas fazia parte.

Estando todos reunidos pela última vez, Jesus anuncia quem é o traidor. É “aquele que se serviu comigo do prato é que vai me entregar”. Esta maneira de anunciar a traição acentua o contraste. Para os judeus a comunhão de mesa, colocar juntos a mão no mesmo prato, era a expressão máxima da amizade, da intimidade e da confiança. Mateus sugere assim que, apesar da traição ser feita por alguém muito amigo, o amor de Jesus é maior que a traição.

Na descrição da paixão de Jesus do evangelho de Mateus acentua-se fortemente o fracasso dos discípulos. Apesar da convivência de três anos, nenhum deles ficou para tomar a defesa de Jesus. Judas traiu, Pedro negou, todos fugiram. Mateus conta isto, não para criticar ou condenar, nem para provocar desânimo nos leitores, mas para ressaltar que o acolhimento e o amor de Jesus superam a derrota e o fracasso dos discípulos.

Preparar a mesa e fazer a refeição implica todo um ritual. Comer é mais do que ingerir alimentos, é entrar em comunhão com as energias que sustentam o universo e, por meio dos alimentos, garantem a vida.

Por isso, a mesa, a ceia e o banquete são cercados por uma rica simbologia. O próprio Reino de Deus, a utopia de Jesus, é apresentado como uma ceia ou um banquete na casa do Pai.

É junto à mesa que se dá o processo de humanização e comunhão; a partir desse ato sagrado, podemos olhar o outro mais de perto, escutá-lo mais de perto, senti-lo mais de perto… pois “a comida, o alimento de nossas refeições, não é somente o que aparenta, mas, remete a algo que está atrás de si, para além de si. Portanto, o gesto de sentar-se à mesa para comer revela um tipo de relação social de um determinado grupo humano” (Manuel Diaz Mateos).

É assim a comunidade dos cristãos, a Igreja: juntos, “conspirando”, mãos dadas, comendo o pão, bebendo o vinho e sentindo uma saudade/esperança sem fim…

À luz do tema da CF (Fraternidade e Ecologia integral) podemos dizer que no pão e no vinho chegam até nós os quatro elementos da mãe natureza: a terra, o sol, a água e o ar. Através do pão e do vinho entramos em comunhão com essa natureza que nos envolve e nos protege maternalmente. Comungamos com ela e dessa comunhão surge nossa humanidade, na qual se encarna o Filho de Deus.

É o Papa Francisco que, em sua importante encíclica (Laudato sí), faz alusão a esta dimensão cósmica da Eucaristia. Porque, no pão e no vinho se concentra toda a essência da Criação, a exuberante riqueza de seus recursos, a fecundidade inesgotável da terra, a beleza deslumbrante de suas fontes, de seus mares e rios, de seus bosques, de suas montanhas…

Assim expressa o para no n. 236 da encíclica: “A Criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. No auge do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através de um pedaço de matéria. Não o faz a partir de cima, mas a partir de dentro, para podermos encontrá-lo-Lo em nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, e é o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito, a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico. Sim, cósmico! A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a Criação. No Pão Eucarístico, a Criação está orientada para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador”.

O texto é, sem dúvida, de uma grande densidade teológica. Os dons eucarísticos, o pão e o vinho, por sua condição material e terrena e por sua vinculação ao trabalho do ser humano, são parte da Criação, são algo nosso, um “pedaço de matéria”; pertencem à nossa condição mais própria e íntima. Tudo isto nos faz tomar consciência de que, no insondável mistério eucarístico, os dons apresentados são uma representação do cosmos. Todo o universo cósmico é assumido e representado na Eucaristia. Deste modo a Eucaristia se torna o centro do cosmo, o centro vital do universo; ela é celebrada sobre o altar do mundo.

O Universo inteiro é um imenso altar cósmico sobre o qual celebra-se, diariamente, a liturgia da vida; ao mesmo tempo, ele é o lugar no qual podemos contemplar e acolher a presença do Criador, a harmonia dos seres, a comunhão das criaturas. Sobre o altar do mundo se entrelaçam o céu e a terra, de modo que toda a Criação é iluminada pela Eucaristia.

Todas as criaturas celebram a grande festa, ao redor da Mesa cósmica (Última Ceia – Ceia universal).

A vivência da Última Ceia nos proporciona uma fecunda experiência cósmico-ecológica. Sentimo-nos conduzidos pela força do Espírito que alimenta as energias do universo e a nossa própria energia vital e espiritual. Ao mesmo tempo ela nos convida a nos posicionarmos de maneira diferente no Universo e levarmos a sério a responsabilidade que temos sobre a Criação.

E a “eucaristia cósmica” se prolonga nas refeições cotidianas. A comida-bebida é expressão de dependência, de nossa condição de criaturas.

Por esta ação, manifestamos e experimentamos que necessitamos sair de nós mesmos para subsistir. Nela nos encontramos com algo que nos vem de fora e que necessitamos vitalmente, já que não podemos tirá-la de nosso interior.

Somos solidários do universo porque dependemos dele. É nossa dimensão cósmica mais palpável. Vivemos graças aos frutos da terra. Este sentido de religião já nos insinua o religioso.

O fato de tomar juntos uma refeição é sinal de comunicação inter-humana, pois comemos em companhia e não sozinhos. Na sua raiz, a refeição é uma ação que implica comunidade, comunhão, comunicação. Se falta esta dimensão, a refeição se torna uma simples ingestão de alimento; não é um ato humano integral: comer e beber é expressão de nossa unidade de origem e de nossa solidariedade na condição humana; compartilhamos uma mesma origem e um mesmo destino, um mesmo enraizamento na terra, no cosmos.

Texto bíblico: Mt 26,14-25

Na oração: Descubra na sua mesa o seu pão; na sua jornada, o seu chão; no seu cotidiano, o inesperado que vem, o outro em sua fome, em busca de mãos abertas que saibam partilhar.

– Revisitar o sentido e o lugar da mesa-refeição no seu ambiente familiar: é lugar facilitador de partilha e convivência?

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