Matrimônio: Amor de Deus que se faz carne

Data:

Matrimônio: Amor de Deus que se faz carne

 “Desde o princípio da criação Deus os
fez homem e mulher”
(Mc 10,6)

 

 evangelho deste domingo continua nos situando
no contexto da subida de Jesus a Jerusalém e da instrução dada aos discípulos.
A pergunta inesperada e capciosa dos fariseus sobre a licitude do homem
despedir sua mulher tinha intenção de colocar Jesus numa situação
constrangedora.

Mas, como bom mestre, Jesus aproveita também
desta circunstância para re-situar a todos no “princípio da criação” e
recuperar a essência do matrimônio.

Na realidade, a atitude de Jesus é
coerente com toda sua trajetória. Se algo fica claro, no relato evangélico, é
seu posicionamento decidido a favor dos “últimos”, dos “pequenos”, das
“crianças”, das mulheres…

Por tudo isso, não parece casual
que, depois do relato no qual defende a igualdade da mulher com relação ao
homem, apareça a cena de Jesus abraçando as crianças.

Seja qual for o motivo da pergunta
feita pelos fariseus, a resposta de Jesus vai se centrar neste ponto: a “intuição primeira” (e, portanto, também o “horizonte”) para a qual tende a
relação amorosa entre homem e mulher é esta –
“o que Deus uniu o homem não separe!”. Mas Deus não une pelas leis
canônicas e sim pelo amor cuja
intenção é a plena comunhão entre duas pessoas. Uma coisa é a indissolubilidade
canônica e outra é a fidelidade que o casal deve atualizar cada dia e em cada
instante de sua convivência.

 

A palavra “matrimônio”
significa, etimologicamente, “múnus” ou tarefa de mãe
a serviço da gestação e educação dos filhos. Mas, segundo o evangelho de Jesus,
o matrimônio é uma realidade anterior: é a “matriz” ou fonte comum de vida onde
duas pessoas “vivem com-vivendo e existem co-existindo”.

Significativamente, ao referir-se ao matrimônio,
Jesus destacou a fidelidade ou comunhão de duas pessoas centrada na convivência
mútua e não na lei de poder de um sobre outro (neste caso, do marido).

O evangelho realça a graça original do matrimônio
rejeitando a pergunta de poder, segundo a lei, do fariseu:
“Pode o homem despedir a mulher?” Esta é uma pergunta
patriarcal que se coloca a partir do poder do homem sobre a mulher, poder que
Jesus rejeita com palavras da mesma tradição israelita (Gen 1,27; 2,24-45).
Jesus busca redescobrir e potenciar o princípio superior de vida em comunhão,
na linha da fidelidade pessoal e de igualdade na nobre missão de ambos, marido
e mulher, se tornarem mais humanos, a partir do amor que os une e os abre à
vida.

 

O mais interessante do Evangelho de hoje é que
Jesus vai mais além de toda lei. Busca desvelar a raiz antropológica do
matrimônio (o projeto de Deus) para não anular nunca o que é verdadeiramente
humano.

Ao fazer referência “ao princípio”
Jesus vai diretamente à essência do problema, tratando de descobrir as
exigências mais profundas do ser humano (vontade de Deus).

O homem e a mulher são um lugar privilegiado de
revelação e de experiência do Amor de
Deus. Eles são a encarnação e a visibilização desse Amor Ágape que tem sua
fonte no próprio Deus. Cada pessoa jamais deixa de ter suas raízes plantadas no
coração do Criador.

A palavra de Deus não se encarnou
só em Jesus, mas em todo matrimônio, que é “palavra de Deus”, sendo palavra de
dois, um homem e uma mulher, duas pessoas que descobrem, um no outro e com o
outro, o sentido mais profundo de suas vidas, e decidem compartilhá-lo, em
comunhão de amor, acima de toda lei particular, como aliança permanente.
“Matrimônio”: lugar da manifestação do amor oblativo do Criador.

 

O caminho que mulher e homem iniciam como
cônjuges (conjuntamente), não é algo estático, mas é mudança, é abertura ao
novo, é movimento em direção a um amor maior. Nesse sentido, o matrimônio é o
sacramento que faz mulher e homem entrarem no dinamismo expansivo do Amor de
Deus. Na sua essência, o amor é oblativo, aberto, gratuito…; o amor
não se fecha a dois: abre-se, amplia-se, envolve outros…; amor expansivo e
que se expressa na compreensão, no perdão, no apoio, na paciência, no companheirismo…

No
matrimônio, cada um é chamado a ajudar o outro a ser mais humano, mais gente,
mais pessoa, mais santo(a)…; cada um tem a nobre missão de facilitar que o
outro cresça e desenvolva suas capacidades, riquezas…; cada um deve ser para
o outro uma presença instigante, inspiradora… À luz do Amor primeiro, ativar
e despertar mutuamente os dons originais, os recursos e capacidades
mobilizadores…

É
querer bem, respeitar, valorizar, sentir a falta do outro, conceder espaço,
querer que o outro cresça, alegrar-se com as vitórias do outro, compadecer-se
com os seus fracassos…

É
ajudar a manter sempre acesa a
“faísca de Javé” (Cant. 8,6), a chama do amor eterno. Amor que encontra
expressões
diferentes de acordo com as circunstâncias e as fases da vida.

É
preciso ser criativo na maneira de expressar o Amor Ágape e não deixar que a
“faísca do amor divino” se atrofie pela rotina, cansaço, desencanto…

 

Em sentido profundo, na união conjugal, ninguém
perde e nem se anula, mas os dois ganham, apresen-tando-se, de maneira
complementária como iguais, e iniciando um processo de amor ou fidelidade
pessoal sem domínio de um sobre o outro, amparados pelo mesmo Deus que se
revela como Aliança de amor.

Deus garante assim o processo de fidelidade, que faz
do matrimônio um contínuo recomeço e um processo de comunhão que respeita a
diversidade de cada pessoa.

Por isso, na tradição judeu-cristã, a relação de
um casal se expressa com as palavras:
“serão
os dois uma só carne”.
Trata-se de uma expressão vigorosa e de uma imagem
esplêndida, que destaca a unidade-na-diferença.

Sabemos que o maior inimigo do matrimônio é o
egoísmo. A ânsia de buscar em tudo o benefício próprio e pessoal arruína toda
possibilidade de viver relações verdadeiramente humanas. Esta busca do outro
para satisfazer as necessidades do próprio ego, anula toda possibilidade de uma
relação profunda de um casal. A partir da perspectiva hedonista, o casal estará
fundamentado no que o outro traz de benefício, nunca no que cada um pode partilhar
mutuamente. A consequência é nefasta para ambos.

Ao
envelhecer juntos, meta desafiante, consuma-se o matrimônio.
Assim é que se realiza a
vida com-junta-mente, fazendo-se companhia digna, ajudando-se mutuamente a se
tornarem mais humanos; uma companhia experimentada como dom, com alegrias e
sombras, querendo-se muito e também sendo mútuo suporte, mesmo no outono da
vida.

Por isso, ao falar de “indissolubilidade matrimonial”,
é preciso assumir com lucidez e serenidade o caráter processual da relação de
“duas pessoas unindo-se” em “comunhão de vida e amor”.

Os trâmites legais que certificam o
consentimento conjugal se firmam em um momento. Mas a união de duas pessoas em
“comunhão de vida e amor” não é momento, mas processo; não tem efeito
instantâneo a partir de uma declaração legal, nem de uma fusão biológica, nem
de um artifício mágico, nem sequer de uma benção religiosa; não é uma foto
estática e morta, mas um processo dinâmico e vivo.

A expressão “sim, eu
quero”,
não é uma
fórmula mágica que produz automaticamente um vínculo indissolúvel. Para o
casamento, basta meia hora. Para a consumação do matrimônio “de maneira
humana”, é preciso uma vida inteira.

Texto bíblico
Mc
10,2-16

 Na oração:  Que a “faísca do Amor de Deus”, presente

                     nos corações de todos, se transforme numa
labareda, iluminando e aquecendo o cotidiano de suas vidas, inspirando e apontando
caminhos para todos aqueles que, em meio às sombras, vivem tateando um sentido
para suas existências.

– O Amor de Deus encontra espaço no seu
interior, iluminando e dando sentido ao seu ritmo de vida?

– Quê gestos e atitudes de sua vida são
transparência do Amor de Deus?

Compartilhar

LEIA MAIS

02 ago 2026

Compaixão e partilha: verdadeiro sentido do seguimento de Jesus

26 jul 2026

Buscar o tesouro e a pérola que somos

01 ago 2026

Clero de São José dos Campos

01 ago 2026

Encontro da Província 2026

01 ago 2026

Encontro da Formação da BRA

19 jul 2026

Semente e fermento: dinamismos de vida que querem se expandir

12 jul 2026

Em cada semente, uma faísca de eternidade

05 jul 2026

Mansidão e humildade, atributos que nos humanizam

28 jun 2026

Pedro e Paulo: duas “rochas vivas”, um só Fundamento

21 jun 2026

Nada pode destruir nosso ser essencial

16 jun 2026

PARÓQUIA SÃO SEBASTIÃO/SP

14 jun 2026

Grandeza e força da sensibilidade

11 jun 2026

88ª Assembleia do Regional Sul 1

07 jun 2026

O chamado que nos faz retornar à nossa morada interior

04 jun 2026

Comer e beber é fácil… assimilar uma Vida é desafiante