Bem-aventuranças: a felicidade ao alcance de todos

Data:
16/02/2025

“E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: bem-aventurados vós…” (Lc 6,20)

O cristianismo sempre proclamou a grandeza das bem-aventuranças; sempre afirmou que elas são o “coração do Evangelho”, a proclamação do Reino de Deus, a síntese da fé cristã. Mas, na realidade, são poucos os que compreendem sua mensagem e, menos ainda, os que fazem dela o núcleo real de suas vidas.

Podem as bem-aventuranças acrescentar algo a quem se sente infeliz, rejeitado, frustrado…? Não seriam as bem-aventuranças uma bela teoria sem qualquer repercussão em nossas vidas?

Sempre se disse que as bem-aventuranças são a maneira original de viver o seguimento de Jesus Cristo. Porém, estaríamos equivocados se somente víssemos nelas um código moral ou um manual de conduta. As bem-aventuranças são muito mais. Elas não são leis que se impõem de fora, mas “dinamismos vitais” que brotam de nosso ser essencial; elas emanam das profundezas do nosso coração, qual água cristalina que brota das entranhas da terra.

Por um lado, elas indicam o espírito que deve animar os seguidores de Jesus. Por outro, elas nos prometem aquilo que mais ardentemente deseja o nosso coração: a felicidade.

Todos nós carregamos na mais profundo de nosso ser uma fome insaciável de “algo” que chamamos felicidade. Por isso, quando ouvimos com atenção e sensibilidade, as bem-aventuranças despertam em nós um eco especial, reacendem a esperança e sustentam uma vida mais ousada.

O fundamento de todas as bem-aventuranças está no próprio Deus, em sua Presença e em seu reinado.

Na proclamação das bem-aventuranças, Deus se coloca como defensor e garantidor da vida dos pobres, dos que estão cansados, marcados pela dor e pela violência, e que, aos olhos dos outros, são os últimos, os “perdedores”, insignificantes. Aos olhos de Deus, no entanto, essas vidas valem, são preciosas, são a “menina de seus olhos”, precisamente porque são frágeis, ameaçadas.

A felicidade, a vida ditosa, a bem-aventurança, é que Deus pôs seu olhar sobre eles e elas.

Deus se oferece a si mesmo como abundância, alegria, consolo, esperança, terra prometida, rosto visível, misericordioso, Pai-Mãe. Eis aí a bem-aventurança por excelência: Deus mesmo.

Um dos fracassos mais graves da Igreja talvez seja o de não saber apresentar o Deus cristão como amigo da felicidade do ser humano. Infelizmente, parece ser consenso afirmar que o específico “do cristão” não é buscar a felicidade, mas sim as exigências das leis, das abnegações, das penitências e mortificações. Com isso, a vida de muitos cristãos torna-se um “peso” insuportável e a imagem de Deus revela-se terrível.

Na realidade, o ser humano somente se interessará por Deus se intuir que Ele pode ser fonte de felicidade.

Esse é o primeiro dado. Todos buscamos ser felizes. Não sabemos como alcançá-la, nem onde ela pode estar, mas todos a buscamos. O ser humano sempre anda em busca da felicidade. Se não a tem, a busca; se crê possuí-la, trata de conservá-la; se a perde, esforça-se para recuperá-la. E quando renuncia a uma determinada felicidade, sempre o faz buscando outra de maior profundidade.

Se aprofundarmos um pouco, percebemos que a cada manhã nos despertamos para a felicidade. Por detrás de todas as ocupações, experiências ou acontecimentos que nos esperam está o desejo de viver com mais intensidade e com mais sentido: aqui está o cerne da felicidade.

E a felicidade não vem das coisas, dos bens, das riquezas; estas até podem nos dar pequenas satisfações, mas não a felicidade.

A felicidade não é tirar água do poço, mas ser manancial de água viva; a felicidade não é aquecer o fogo, mas ser fogo que aquece. A felicidade não é escutar música, mas ser música por dentro. A felicidade não é crer no Evangelho, mas sentir o Evangelho arder por dentro.

Não é a miséria, o sofrimento, a injustiça, nem a submissão e a resignação… que as bem-aventuranças tratam. Deus não se torna feliz com a fome, a pobreza, a dor e o pranto dos seus filhos e filhas. Neste sentido, dirigindo-se à multidão ou à sua comunidade de discípulos, Jesus emite um grito, um protesto, e nos lança um desafio em nome de Deus Pai e Mãe que Ele descobre e chama “Abba”.

O que é que leva Jesus a proclamar, com alta e viva voz, “felizes” os pobres, os que choram e padecem fome, perseguição…? A partir de onde olha Jesus e o quê vê?

Jesus não vê outra realidade; vê a mesma realidade de dor e injustiça, mas faz isso a partir de outro olhar.

Sua própria interioridade, profundidade habitada, sua ousada atitude solidária, sua paixão pelo Reino de Deus e seu compromisso com a vida em meio àquela Galiléia de injustiças e mortes prematuras, lhe permitem um olhar diferente, “a partir de outro lugar”.

Uma grande sensibilidade e pureza de coração permitem a Jesus atravessar a superfície, a casca obscura daquela dura realidade que encontra, e o capacita a olhar mais profundamente. Jesus vê a resistência e a reserva de esperança, o reduto de dignidade não contaminado nos seus contemporâneos, uma marca invisível da mesma fibra ou da “mesma madeira” de seu Pai e nosso.

Jesus vê essa marca divina (pegadas) mesmo nos rostos e corpos mais feios e deformados pela fome, doença, miséria… Em todos, vê “filhos(as) de Deus” e não malditos de Deus. Ele conhece o Pai intimamente e sabe de seu amor incondicional por todos, mas também sabe que há filhos que, por sua vulnerabilidade e abandono, são os seus “preferidos”.

O próprio Jesus, sendo pobre, conhecendo o pranto, a fome, a crítica, a perseguição… experimentou a si mesmo como “feliz”, consolado, Filho de Deus. E Ele compartilhou sua felicidade em excesso, para que outros pudessem também compartilhar com Ele essa vida prazerosa.

A mesma bem-aventurança, nascida de sua certeza de ser amado, é a que assegura aos que o seguem, que todos estão no coração compassivo do Deus Pai-Mãe.

E isso que Jesus vê é o que ensina a seus discípulos e todos os que o escutam. Descobre e experimenta a paternidade-maternidade de Deus; a partir dessa experiência prega o advento do reinado de Deus e sua justiça. Assim, redescobrimos a Bem-aventurança como a proximidade, a presença, o abraço de Deus a todos os seus filhos(as), mas de modo privilegiado aqueles que tem a vida ameaçada.

Resulta, então, que as bem-aventuranças são uma provocação de Deus, interpelação e desafio para os seguidores de Jesus de todos os tempos. Deus é a sorte e a promessa, a garantia última, mas conta com nossa liberdade e nossa colaboração para consolar, saciar as fomes, curar, levantar…

Somos convidados a nos re-situar, a mudar de olhar, de lógica e de coração: em vez de acumular, compartilhar; em vez de rir de costas para a dor do mundo, consolar; em vez de resignar-se à injustiça, trabalhar pela paz e pela justiça. Deus continua sonhando e apostando na humanidade… em nós.

Concluímos afirmando que as bem-aventuranças são uma alternativa de vida para os discípulos, de ontem e de hoje; como comunidade de seguidores de Jesus, animada pelo espírito das bem-aventuranças, todos se tornam testemunhas desse “mundo às avessas”.

Texto bíblico: Lc 6,17.20-26

Na oração: As bem-aventuranças são a expressão máxima do Amor do Reino de Deus, que está vinculado com a expansão da vida e com as relações pessoais, sendo assim princípio e sinal de felicidade. Esse é o dom e a tarefa de todos, vivendo uma contínua gratidão diante d’Aquele que é a Fonte de uma vida feliz.

– você se deixa destravar por dentro pelo impulso das bem-aventuranças, ou se mantém dentro da “zona de conforto” de suas ideias e atitudes?

Compartilhar

LEIA MAIS

31 ago 2025

A sedução dos primeiros lugares

28 ago 2025

Retiro do Clero de Osasco

25 ago 2025

ETE FMC – Projeto de Vida: Identificando Talentos

24 ago 2025

Porta Aberta: Travessia para o Inesperado

17 ago 2025

Maria, a mulher dos olhos contemplativos

14 ago 2025

Retiro da Diocese de Campo Limpo

11 ago 2025

Mosteiro de Itaici organiza tríduo em honra a Santo Inácio

10 ago 2025

Buscar o tesouro que somos

07 ago 2025

22º Curso de Aprofundamento Teológico e Pastoral do Clero Arquidiocesano

07 ago 2025

Rede Servir realiza III Simpósio de Espiritualidade Inaciana em Itaici

03 ago 2025

Vazio interior: uma morte lenta

01 ago 2025

Retiro da Diocese de São José dos Campos

26 jul 2025

50 Anos do Congresso Fabra no Mosteiro de Itaici

27 jul 2025

Ser aprendiz na escola de oração de Jesus

20 jul 2025

O ativismo que nos seca por dentro