S. Pedro e S. Paulo: duas identidades, uma só missão

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“E vós, quem dizeis que eu sou?”- “Quem és tu, Senhor?”



O chamado de Jesus se apresenta de modos muito diferentes nos evangelhos, segundo o temperamento e as circunstâncias de cada pessoa. Algumas vezes, o convite a seguir Jesus chega ao discípulo por mediação de outro: “encontramos o Messias”, diz André a seu irmão Pedro. O chamado chega a Pedro por meio de André, e a Natanael por meio de Felipe. E assim, o chamado de Jesus se prolonga, se estende e chega até nós.

 

Sempre é Deus quem tem a iniciativa no chamado, mas Ele chama sempre por mediações: através do próprio desejo e das próprias capacidades, através da profecia e da presença de uma pessoa concreta, através do grito e da necessidade dos sofredores. Os(as) seguidores(as) de Jesus, movidos pela presença e pela promessa do Pai, se convertem em “pescadores do humano”, ou seja, em libertadores de homens e mulheres, na esperança e no compromisso em favor do Reino de Deus. 

 

A liturgia da festa deste domingo nos apresenta duas leituras bíblicas, com duas perguntas impactantes, pois desvelam a identidade e a missão, presentes tanto naquele que faz a pergunta quanto naquele que responde. No caso de Pedro, é Jesus quem toma a iniciativa e pergunta – “e vós, quem dizeis que eu sou?”

 

Ao professar a identidade de Jesus (“o Filho de Deus”), Pedro redescobre também sua verdadeira identidade escondida debaixo de uma personalidade impulsiva, primária nas reações, voluntarista. Mateus, no evangelho deste domingo, nos situa diante de um jogo de palavras entre “petros” e “Petra”, entre uma pedra movediça e a Rocha firme sobre a qual Jesus edificará sua nova comunidade. 

 

O mesmo Simão é ao mesmo tempo “petros” e “Petra”, pedra do caminho e rocha, de tal modo que o sentido da promessa de Jesus seria: “Tu és Pedro/Pedra e sobre essa Pedra/Rocha (que és tu mesmo, Pedro, como pessoa)edificarei minha Igreja”. Parece claro que petros/Pedro foi o apelido que Jesus quis dar a Simão. “Tu és só um petros”, simplesmente uma pedra movediça, cascalho sem estabilidade e que não serve para ser fundamento de uma casa. Isso parece ter sido Simão no princípio, para Jesus e para a comunidade mais antiga. Mas, Mateus acrescenta agora que ele recebeu uma revelação especial de Deus, de tal forma que por ela (pelo dom do Pai), por sua confissão de fé, sem deixar de ser petro/cascalho, ele se converteu em Petra/Rocha firme da fé, alicerce da Igreja de Jesus.

 

A partir desta perspectiva, “esta Rocha” não se refere a Pedro como pessoa-pedra (com suas fragilidades e limitações), mas à confissão de fé que o Pai de Jesus lhe revelou. Apesar de ser pedra do caminho, Pedro recebeu uma revelação de Deus e sobre ela edificará Jesus sua Igreja (não sobre Pedro como pessoa, mas sobre sua confissão de fé). Esta relação entre Pedro (petros-pedra) e sua confissão de fé como Rocha (Petra), sobre a qual Jesus edificará sua igreja, constitui o centro teológico de Mateus, sua contribuição à história da comunidade cristã.

 

Mateus sabe que não tem sentido edificar a Casa/Igreja sobre uma pedra do caminho, ou seja, sobre cascalhos impróprios para a construção e que podem ser arrastados pela água da torrente. Mas ele sabe também que Simão, chamado Pedro/Pedra, está relacionado com a Petra/Rocha da Igreja de tal forma que nem as portas/poderes do inferno poderão prevalecer sobre ela ou derrubá-la.

 

Na situação de Paulo, é este mesmo que faz a Jesus a pergunta: “quem és tu Senhor” (Atos 9,5). Ao responder – “Eu sou Aquele a quem tu persegues”, Jesus pôs às claras a identidade violenta, dogmática, farisaica, legalista… de Saulo.

 

Daí a forte imagem da luz, no caminho de Damasco, que desvela quem é Saulo e quem é Jesus.

O encontro com esta luz, ilumina os recantos violentos e obscuros da personalidade de Saulo. A partir dessa experiência, Saulo começa a travessia em direção à Paulo. Ele reordena seus instintos violentos, agressivos… em favor do Evangelho. Este é o verdadeiro sentido da conversão: não se mata os impulsos humanos, antes desordenados, mas os reordena a serviço de uma causa maior. A tradição afirma que Saulo caiu do cavalo; uma imagem de forte simbolismo, sobretudo para a cultura daquela época: ter um cavalo é símbolo de status, de poder, de vaidade…; “cair do cavalo” expressa que Paulo, para entrar no caminho do seguimento de Jesus, precisou cair de sua prepotência, de seu autocentramento, de seu dogmatismo e preconceito.

 

Para que haja transformação interior, é preciso “cair ao chão”, voltar ao “húmus”, reconhecer-se como humano, cheio de limitações e fragilidades, mas também possuidor de ricas potencialidades. Ao cair, Saulo esvazia-se de seu ego para deixar-se conduzir por outros e pelo Grande Outro.

 

O itinerário Pedro e Paulo, por diferentes caminhos, é um itinerário de humanização, encontro com a própria identidade, uma aventura na descoberta do “mundo interior”, que é o coração, onde acontece o mais importante e decisivo em cada pessoa. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância de dons e riquezas, onde cada pessoa experimenta a unidade de seu ser e o sentido de sua existência. “Quem sou eu? Para quê vivo? Para quem? Qual é o meu lugar e missão no mundo?” 

 

Toda pessoa possui dentro de sí uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal. “Viver em profundidade”significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até os fundamentos do próprio ser, até às raízes mais profundas.A própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem para encontrar segurança e caminhar na vida, superando as dificuldades no compromisso em favor da vida. Com confiança em si e na rocha do próprio ser, todas as forças vitais se acham disponíveis para crescer dia a dia, para a pessoa se tornar aquilo que originalmente é chamada a ser.

 

Texto bíblico:  Mt 16,13-20

 

Na oração: É urgente gerar espaços que facilitem reabrir as vias de retorno ao “lar interior” onde é gestada a identidade de cada um e suas opções mais firmes. 

 

Entendemos a “interioridade” como a arte de descer na própria intimidade, nas cavernas interiores, para estar a sós e em diálogo com Aquele que lhe dá o sentido mais profundo à existência e a seu projeto de vida. Só no nível mais profundo que cada um(a) pode responder, com a própria vida, à pergunta instigante de Jesus: “Quem dizeis que eu sou?”



Pe. Adroaldo Palaoro, sj

Foto:  https://bit.ly/36dPQ7j

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