Um Rei em “más companhias”

Data:

“Jesus,
lembra-te de mim, quando entrares em teu reinado”

(Lc 23,42)

 

Rei, não há outra palavra menos apropriada para
Jesus.

Jesus, rei atípico.  Os reis deste mundo vivem às custas de seus
súditos: explorando, dominando…

Jesus, no entanto, reina perdoando, amando e
comunicando vida a partir de uma situação de humilhação e impotência extremas.
Um rei crucificado é uma contradição e um escândalo. Lucas nos diz onde
e como
Jesus ganha este título de rei: na entrega de sua vida até à morte. Seu
senhorio é de amor incondicional, de compromisso com os pobres e excluídos, de
liberdade e justiça, de solidariedade e de misericórdia.

 

O título de Cristo
Rei
corre o risco de ser utilizado de uma forma pagã, como uma pura
imitação dos reis deste mundo. O triunfalismo religioso e político tem
utilizado este título para defender ideias dominadoras, triunfalistas e
conservadoras.

Esse é a maior contradição da
história humana: o Crucificado é esperança dos pobres, dos pecadores e de todos
os sofredores. Jesus é Rei desta
forma e não da forma triunfalista como querem os cristãos “gloriosos”. Um rei
que toca leprosos, que prefere a companhia dos excluídos e não dos poderosos
deste mundo. Um rei que lava os pés dos seus, um rei que não tem dinheiro e que
não pode defender-se, que não tem exército… Um rei sem trono, sem palácio,
sem pompas, sem poder.

Jesus crucificado é um estranho
rei: seu trono é a Cruz, sua coroa é de espinhos. Não tem manto, está desnudo.
Até os seus o abandonaram. Pobre rei!

 

Por isso, para poder aplicar a Jesus o título de “rei”, devemos despojá-lo de toda
conotação de poder, força ou dominação. Jesus sempre se manifestou contrário a
todo tipo de poder, sobretudo do poder religioso, o mais nefasto.
E não só condenou aqueles que dominam como também condenou, com a mesma
veemência, aqueles que se deixam dominar.

Jesus
quer seres humanos completos, isto é, livres. Ele quer seres humanos ungidos
pelo Espírito de Deus, que sejam capazes de manifestar o divino através de sua
humanidade. Tanto o que escraviza como o que se deixa escravizar, deixa de ser
humano e se afasta do divino.

Jesus
quer que todos sejamos “reis” ou “rainhas”, ou seja, que não nos deixemos
escravizar por nada nem por ninguém. Quando responde a Pilatos, não diz “sou o
rei”, mas “sou rei”; com isso, está demonstrando que não é o único, que
qualquer um pode descobrir seu verdadeiro ser e agir segundo esta exigência.

Há
uma nobreza presente em nosso interior e que é ativada no encontro com o outro,
através da compaixão, do serviço, do amor solidário…

 

Devemos estar conscientes de que o sentido que
queremos dar a esta festa não é aquele dado pelo papa Pio XI, há quase 100 anos,
e nem mesmo aquele sentido que é dado pela maioria dos cristãos. Devemos
conservar o título, mas mudar a maneira de entendê-lo, ou seja, com o Evangelho
na mão podemos continuar falando de “Jesus
rei do universo”.

Jesus será “Reino do Universo” quando a paz, o
amor e a justiça reinarem em todos os rincões da terra, quando todos forem
testemunhas da verdade, quando em todos os ambientes a mesa do Reino se tornar
mesa de inclusão e de acolhida… Jesus será Rei quando estivermos dispostos a
fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela. E são tantos
os crucificados no nosso contexto social e religioso!

 

O Evangelho da festa de hoje faz parte da
narração da Paixão de Jesus. Fixemos
nosso olhar nos persona-gens que assistem ao tremendo espetáculo da crucifixão.
O povo estava ali olhando. Não é a multidão que habitualmente O segue, mas pessoas
que assistem com curiosidade zombadora.

Os
chefes, as autoridades religiosas escarneciam de Jesus. Eles conservavam a ideia
de um Messias triunfal. Tem um Deus feito à medida de seus interesses. A
mensagem de Jesus não os afetou. Julgavam-se em posse da verdade.

Os
soldados também lhe zombavam. Aproximavam-se dele para dar-lhe vinagre. Os
executores da violência do poder romano não podiam entender um rei que não
fazia nada para defender-se.

O
letreiro também indicava ironia:
“Este é o rei
dos judeus”.

Um
dos ladrões o insultava:
“Tu não és o
Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”.

Ninguém
parece ter entendido Sua vida e Sua mensagem. Ninguém compreendeu seu perdão
aos algozes. Ninguém viu em seu rosto o olhar compassivo do Pai. Ninguém
percebeu que, pendente da Cruz, Jesus se unia para sempre a todos os
crucificados e sofredores da história.

 

Mas, a grande surpresa está reservada para o
final da cena: aquele homem impotente, que agonizava na Cruz, promete o paraíso
a outro condenado à morte e que se dirigira a Ele assim:
“Jesus,
lembra-te de mim, quando
entrares
em teu reinado”.

É o único personagem em todo o Evangelho que se dirige a Jesus chamando-o
simplesmente por seu nome, sem acrescentar nenhum outro título como Senhor,
Mestre, Filho de Davi ou Messias.

Sem saber, ele estava em profunda
sintonia com o sentido da missão daquele Homem crucificado, a quem o invocava:
aproximar-se, encurtar distâncias, viver entre nós como um entre tantos,
entregar-nos seu nome e sua amizade, compartilhar de nossa fragilidade, estar
tão perto a ponto de escutar o sussurro de todos aqueles que, sem alento, morrem
ao seu lado…

O “bom ladrão” reconhece a Jesus na
cruz como rei, um rei que morre na fidelidade à sua missão de mensageiro de um
projeto de vida diferente, de um Reino de misericórdia aberto a todos, também
ao pior dos malfeitores, e que oferece sua vida para indicar o caminho da
verdadeira vida que vence a morte: o amor até o extremo. E nisso consistiu sua
glória, sua realeza e seu triunfo.

 

Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora
morre entre dois ladrões. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre os
outros, mas oferece uma nova chance de salvação. Ele é o moribundo que dá vida:
presença solidária, que, mesmo em meio ao pior sofrimento, oferece companhia a
outros sofredores.

O Justo e o pecador, ambos crucificados,
participam da vida definitiva que a morte terrível na cruz não pode vencer.
Jesus é o rei, e o primeiro cidadão que ingressa em Reino é esse malfeitor que
confiou n’Ele.

Assim, impactado pela serenidade e testemunho de
Jesus, “rouba o paraíso”.

No alto da Cruz, Jesus revela uma promessa que
muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aqueles que carregam cruzes
injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela dor, pela solidão,
dúvida, incompreensão ou pranto…

Que ressonância têm estas palavras no interior de
cada um de nós:
“Hoje estarás
comigo no Paraíso”.

Hoje:
porque as
mudanças, a nova criação, a humanidade reconciliada, não tem que esperar mais;
hoje, agora, já…; talvez, se esse “hoje” não chega é por causa de tantas
pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas… Comigo: a promessa de viver em sua companhia
desperta ecos de uma plenitude que não conseguimos entender.

No
paraíso
: que não é
um mítico Eden, mas lugar de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto,
nem dor; realidade que já se presente entre nós, sobretudo onde habita a
justiça, a paz, a compaixão…

 

Texto bíblico:  Lc 23,35-43

 

Na oração: Situar-se diante do Rei Crucificado e dos crucificados da história. No
nosso atual contexto

                   social, político e religioso
são muitos os julgamentos, ódios, mentiras, intolerâncias, precon-ceitos… que
continuam crucificando e fazendo vítimas. E tudo isso em nome da “religião e da
moral cristã”. O Crucificado Inocente continua revelando seu rosto nos
crucificados de hoje.

– Como tirar das
cruzes as vítimas inocentes que estão dependurados nelas?

– Como construir
hoje o paraíso? Neste momento histórico, como ativar e despertar a esperança
nas vítimas?

 

 

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