Cristo, Rei Eterno, mostra na encarnação como Ele quer conquistar os seus inimigos: convertendo-os. Ele é a Caridade Incriada do Pai, que, por obra do Espírito, se fez carne da nossa carne no seio virginal de Maria. Maria é a “terra virgem” do mundo novo do Reino do Pai.
E como é a Caridade? São Paulo canta o hino da Igreja primitiva: “A Caridade é paciente, a Caridade é prestativa, não é invejosa, não se exibe, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A Caridade jamais passará!” (1Cor 13,4-8). Assim, Jesus, a Caridade do Pai para nós, é o próprio Rei eterno, “Rei e centro dos corações” (Ladainha do Sagrado Coração). Ele veio nos libertar da sedução do pecado, dos ídolos, e nos seduzir para amar a terra, as criaturas de Deus, a nós mesmos, nossos irmãos, os seres humanos, incluindo os inimigos. Como disse uma vez dom Helder: “vamos conjugar o verbo ‘amar’ e não conjugar o verbo ‘odiar’ ”.
Voltemos a contemplar o olhar da Trindade: reparemos bem como é um olhar sem irritação nem rancor, triste com a injustiça e alegre com a verdade; olhar cheio de desejo de ser útil e prestativo, de servir à causa da nossa redenção, brilhando de vontade de “restaurar todas as coisas em Cristo” (Ef 1,10): “Reconciliando com Ele e para Ele todos os seres, os da terra como os do céu, realizando a Paz pelo sangue de sua Cruz” (Cl 1,20). O olhar amoroso da Trindade abrange todas as suas criaturas. Conhece as nossas perdições, os nossos conflitos e contrastes. Como até queremos fazer o bem, mas, por desgraça, fazemos o mal (Rm 7,14-25). Já o Salmista invocava a Misericórdia, contemplando, também ele, o triste estado da cidade dos homens sem Deus: “Sim, eu vejo a violência e a discórdia na cidade! Dia e noite elas rondam nos seus limites. Dentro dela há maldade e tormento. Ruína, opressão e mentira nunca se afastam de suas praças” (Sl 54[55],9-12).
Mas o olhar de Deus Amor não se afasta de nós e é causa da nossa alegria. Cheio de infinito respeito pela nossa liberdade, de um tremendo carinho por nós, pecadores, ele se fixa numa casinha de um recanto esquecido do mundo. Para este lugar humilde, envia o seu Anjo à Imaculada. Então, “o Verbo se fez carne e habitou entre nós. E nós vimos a Sua Glória, glória que tem junto a seu Pai como Filho Único” (Jo 1,14). Cantemos: “Que é um mortal para dele te lembrares, um filho de Adão, para que o venhas visitar?” (Sl 8,5).
|| E X E R C Í C I O ||
EXERCÍCIO DA ENCARNAÇÃO (2):
A anunciação (EE 108; Lc 1,26-28)
Vou harmonizar-me e fazer a oração preparatória: “Conduze-me, Divino Espírito, para que eu contemple com o coração e a mente a verdade da nossa Salvação!”.
Releio, calmamente, o relato de Lucas 1,26-28.
Composição vendo o lugar: vou ver com os olhos da imaginação a casa pobre de Nazaré e Maria na sua atividade do dia a dia das famílias de trabalhadores… ou então serenamente em oração. Pedirei que me alcance a graça de conhecer Jesus, o Messias, que começou a vida no seu ventre abençoado.
O modo que Inácio indica para fazer esta contemplação se inspira em 1 João 1,1-4: ver, ouvir, tocar para entrar na comunhão de vida que o Pai nos oferece em Jesus.
Ver: Maria, jovenzinha, comprometida em casamento com José. O Anjo, mensageiro do anúncio. Maria, a escolhida e também a conhecedora da história do seu povo na expectativa do Messias.
Ouvir: “Alegra-te!” — o convite à alegria que é feito à Virgem, a “Filha de Sião” (Sf 3,14; Zc 9,9). Ela representa todo o Povo de Deus e acolhe a alegria do Cristo para toda gente! “Cheia de graça”: a agraciada de Deus, assim diz o Anjo. Assim é vista por Deus: agraciada por Ele para viver a vocação e a missão de Mãe do Messias. “O Senhor esteja contigo”: não mais como estava no Antigo Testamento! Agora, Deus se insere pessoalmente na história humana: “Chegada à plenitude dos tempos” (Gl 4,4), o Verbo Eterno do Pai se fez carne no seio de Maria! Definitivamente, Ele é o Emanuel, Deus conosco para sempre. “Não tenhas medo, Maria! Eis que conceberás e darás à luz um Filho… O Espírito Santo virá sobre ti… Por isso o Santo que de ti nascer será chamado Filho do Altíssimo…”. Vou retomando estas palavras… Deixo-as ressoar em mim… Rezo aquilo que me ocorrer… Admiro… E reflito sobre mim mesmo(a) para tirar algum proveito.
Observo como Maria reage. Virgem prudente, ela se põe a pensar, perguntando-se qual o sentido daquela saudação. Sua resposta é ponderada e serena: “Faça-se em mim segundo a Sua Palavra”. Ela atende à Palavra de Deus. Ela se exprime como “serva do Senhor”. Paro. Saboreio. Admiro. Deixo-me inspirar. Contemplo as atitudes, o comportamento de Maria. Observo-me: as minhas reações, os meus argumentos e respostas exprimem disponibilidade e confiança tranquila em meu Deus, Senhor e Salvador? Ele é o meu Amigo Fiel. Quero ser o fiel amigo dele?
Colóquio: com muita reverência diante de Maria, Sacrário de Deus, inclino-me diante dela. Vou recolhendo as moções que tive durante a contemplação. Peço a graça de que mais necessito para entregar-me à minha vocação cristã e pessoal à sua imitação. Concluo com a Ave-Maria.
Noto e anoto o que for apelo, inspiração… ou resistência. Assim posso continuar a oração, deixando-me levar pelo Espírito que sopra onde quer. Também em mim!
Texto retirado do livro Cristo “Mais conhecer, para mais amar e servir!” – Edições Loyola – 2010
Autores: Maria Fátima Maldaner, SND / Pe. R. Paiva, SJ