CEI-Itaici
ACONTECEU


Curso de Capacitação | CAP 1 - 2010

Aconteceu mais uma vez em Vila Kostka, Indaiatuba-Itaici, o Cap1 (Curso de capacitação para orientadores e acompanhantes dos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola), de 09 a 18 de Julho. Contamos com um animado grupo de 41 pessoas (leigos(as), religiosas(os), padres e estudantes de teologia) vindos dos vários estados do Brasil e até do exterior.

A dinâmica do Cap1 acontece num clima muito agradável de convivência, partilha, estudos e celebrações. Tivemos a oportunidade mais uma vez de crescer no conhecimento da metodologia e dinâmica interna dos EE e num contato maior com o texto inaciano.

Pe. Renato,SJ - Coordenador do Cap1/2010

 

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Alguns traços característicos da experiência de Deus em S. Inácio

1 - A “experiência de Deus” leva a reler a vida a partir de alguma vivência forte de Sua presença amorosa (1Jo. 4,10).Isto supõe abrir os olhos ou reconhecer a presença permanente de Deus em nossas vidas, na história e na criação inteira. Isso é o que S. Inácio convida a reconhecer na “Contemplação para alcançar amor” (EE. 230-237). A mesma sensação nos fica ao ler a Aut. 7 e 87.

Trata-se de uma “notícia” que só pode ser percebida numa vivência especial e que é graça de Deus. Dita “notícia” implica a releitura da própria vida para um futuro novo. É descobrir o “futuro de nosso passado”.

2 - A “experiência de Deus” supõe reconciliação e constatação concreta de salvação (Gen. 33,4-10).

Algo imerecido se aproxima deslocando a culpabilidade narcisista para o horizonte da misericórdia (Aut. 25). Este aspecto da experiência costuma estar marcado por alguma vivência forte da misericór-dia de Deus que ajuda a crescer em honestidade. O convencimento profundo do amor que Deus nos tem vai derrubando os medos que temos ao enfrentar a própria verdade.

3 - A “experiência de Deus” implica o conhecimento de sua Vontade.

Trata-se, pois, de uma experiência profunda, porque a pessoa passa a conhecer o lugar que lhe é oferecido na história da salvação. Não pode existir profundidade maior que descobrir o lugar que corresponde a cada um na marcha concreta da história para o Reino de Deus.

Isto aconteceu a Inácio em sua famosa ilustração do Cardoner (Aut. 30).

Desde aquele momento Inácio soube qual é o lugar de cada coisa no desenvolvimento do projeto divino de salvação. Inácio captou a profundidade das coisas; viu de forma singular e privilegiada a transparência de tudo que nos impele para o futuro. Compreendeu o fim último das coisa.

Captar o sentido último das coisas é vislumbrar seu futuro verdadeiro, ou seja, vislumbrar o futuro no projeto de Deus.

4 - A “experiência de Deus” supõe descobri-lo escrevendo direito nas linhas que nós fizemos tortas.

Quem experimentou a Deus O encontra nos momentos duros e difíceis da vida abrindo futuro e sentido (Aut. 46 e 47). Quem tem alguma vivência forte de Deus está habilitado para descobri-Lo escondido em suas fissuras. Estamos diante de alguém que está convencido de que Deus pode fazer maravilhas através de suas debilidades (1Cor. 1,26-29; 2Cor. 12,9).

5 - A “experiência consolidada de Deus” nos habilita a buscá-Lo e encontrá-Lo em todas as coisas.

Com efeito, a criação, a história e o ser humano são sacramentos de Deus que se fazem transparentes a quem teve acesso ao sentido radical. Descobrir ou encontrar Deus em todas as coisas é encontrar a verdadeira dinâmica das coisas, pessoas e a realidade inteira. Desta forma a experiência de Deus leva a uma experiência da vida diferente em todos os aspectos.

Na Aut. 99, S. Inácio não está falando da vivência forte de Deus ou mística, que sempre é uma graça inesperada, mas sim está falando da experiência de Deus como a entendemos aqui.

6 - A “experiência de Deus” absolutiza valores na medida em que ficam vinculados a Ele (Ex. 2,11-3,12).

Sabemos que é encomendado a Moisés anunciar a libertação da opressão egípcia; mas o valor ou os valores que esta missão supõe, não são novos para ele.

A valorização da liberdade para seu povo ou a compaixão diante das penas que seus irmãos sofrem, não é algo que acontece com a experiência da sarça. A novidade da experiência da sarça é a absolutização daqueles valores que Moisés carregava em suas entranhas desde há muito tempo.

A experiência da sarça o convence de que não é um puro sentimentalismo o que lhe move, mas que por detrás está o sentido mesmo da vida e da história. A experiência lhe confere uma confiança substancial que lhe fará sair de si mesmo para arriscar-se por inteiro na causa libertadora.

A partir desta perspectiva se entende a tão conhecida firmeza que caracterizava a Inácio para determinados assuntos. Certos valores foram absolutizados em sua experiência de Deus.

7 - A autêntica “experiência de Deus” não só gera uma transformação na pessoa que a vive, senão que também “qualifica” e “determina” o modo concreto da nova vida que se empreende...

Essa é a experiência que S. Inácio nos conta quando em Manresa “...lhe pareciam novas todas as coisas; como se fosse outro homem e tivesse outro intelecto....” (Aut. 30). E à hora de precisar no concreto essa novidade, o conteúdo da própria percepção do Deus vivo e inabarcável é determinante.

O fato mesmo da experiência de Deus põe em marcha o processo; o conteúdo da mesma o qualifica e lhe dá uma forma concreta.

E o Deus que Inácio experimenta em Manresa é o Deus que o leva à ação de ajuda aos homens, na identificação com Jesus pobre e humilde.

8 - A “experiência de Deus” estremece (Is. 66,2) e oferece uma imediata consciência da própria limitação.

O Deus dos israelitas não é um Deus que se diverte aparecendo diante dos homens para atemorizá-los com sua presença que pode ser fulminante; no Êxodo, nos encontramos com um Deus que estremece e que suscita um respeito sem comparação, enquanto que recorda Quem é e Quem foi Ele para o povo, ao mesmo tempo que recorda o motivo profundo da libertação da servidão no Egito.

9 - A “experiência de Deus” é como o horizonte: quanto mais se caminha para ele, mais se afasta. “Quanto mais amemos a Deus, mais experimentaremos sua distância sempre crescente e mais nos estremecerá o santo imperativo de suas exigências” (K. Rahner).

“O chamado de Deus - a vocação - é duplo. Deus chama a cada um dizendo: Vem e segue-me!

É um chegar e é um partir. É encontrar e continuar buscando. Porque, como diz S. Gregório de Nissa, ‘encontrar a Deus é buscá-Lo incessantemente’.

O chamado de Deus é um chamado constante ao desconhecido, à aventura, a segui-lo na noite, na solidão. É um chamado incessante a ir mais além, mais além. Porque Deus é dinâmico, e não é estático (como sua criação também é dinâmica) e chegar a Ele é avançar sempre. O chamado de Deus é como um chamado a ser explorador, um convite à aventura”. (Ernesto Gardenal).

Sem dúvida, a “experiência de Deus” se traduz em busca contínua, em marcha serena, em sede que nunca se sente satisfeita. E essa sede será vivida com mais intensidade à medida que passa o tempo.

Talvez a explicação mais profunda disso se encontre em que Deus é inabarcável e imanipulável.

É o “Deus sempre maior” de Inácio. A marca maior que a experiência de Deus deixa no ser humano é a paz de espírito. Abrir-se à experiência que Deus se comunica está claríssimo. Nós é que temos de preparar o terreno para que o totalmente Outro possa tocar nosso coração ou manifestar-se em nosso ser de forma que a consciência possa percebê-Lo.

As atitudes básicas são a confiança e a humildade (Is. 66,2 e Miq. 6,8). Estas atitudes supõem a abertura ao novo, ao imprevisto, para que realmente possa acontecer a experiência.

A experiência, como vimos, é sair e peregrinar. Trata-se de percorrer caminhos desconhecidos e deixar que ali ocorra o que se esconde. Talvez algo disto tenha a ver com o “grande ânimo e liberalidade” de S. Inácio (EE. 5).

É necessário vencer um temor que brota, muitas vezes, de pretender conhecer de antemão a experiência que vamos realizar, como também para arriscar-nos nela. Isto vicia a experiência porque mata sua novidade.

Requer-se, finalmente, que disponhamos e cultivemos a abertura ao novo e incomensurável enquanto seja possível, assim como estar sempre em expectativa, à espera da dimensão religiosa de nossa experiência.

É isto que Unamuno dizia: “Alarga a porta Pai, porque não posso passar, a fizeste para as crianças, eu cresci a meu pesar. Se não alargas a porta, faça-me criança, por piedade, volta-me àquela idade em que viver é sonhar!”



21/07/2010 - 11:41

Por Robson Pranstreter


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